domingo, 17 de janeiro de 2016

Scooby-Doo e os Invasores Alienígenas

            O mundo está sossegado? Nenhum ator morreu? Posso continuar com minhas críticas de Scooby-Doo? Ótimo.
            Como vimos, “Scooby-Doo na Ilha dos Zumbis” foi praticamente um marco na história da franquia, algo completamente diferente de tudo que foi feito antes; “Scooby-Doo e o Fantasma da Bruxa” tentou seguir nessa corrente, mas acabou não tendo o mesmo impacto do filme anterior; agora chegamos ao momento em que os responsáveis pela franquia decidiram voltar às velhas rotas, com “Scooby-Doo e os Invasores Alienígenas”, lançado em 2000.

            Eu não sei, desde que eu vi que esse seria o próximo filme que eu iria assistir já imaginei que não seria tão assustador quanto os anteriores. Isso porque, embora admito que as possibilidades do que se fazer em um filme com alienígenas são quase infinitas, nunca os considerei como um bom material de terror. Zumbis e bruxas podem ser assustadores, sim, mas isso porque eles possuem certo elemento de desconhecido e invencível neles que os torna ameaçadores. Alienígenas, porém, podem ser feios, sim, mas pessoalmente acho difícil torna-los de fato assustadores. A menos que o seu alienígena se pareça com isso

            Evite aborda-los como algo supostamente assustador.
            Mas, talvez, “Os Invasores Alienígenas” nem quisesse ser um filme tão assustador quanto os dois anteriores em primeiro lugar. Pelo que o tom do filme sugere, parece que a ideia dos criadores dele era não aproxima-lo dos dois filmes anteriores da franquia, mas sim de suas origens mais simples e cômicas, no final da década de 60. É como se eles dissessem “Bom, já enfatizamos nosso ponto com os outros filmes, Scooby-Doo pode ser sério e assustador. Agora vamos fazer algo parecido com o que as crianças se lembram de ter assistido na TV”. Há vários pontos que me fazem suspeitar que foi isso que aconteceu, mas vou apontando eles ao longo dessa crítica.

            O filme começa da mesma forma como a maioria dos episódios originais de Scooby-Doo começavam: Com a turma viajando pelos Estados Unidos em sua van sem nenhum destino certo. Imagino que no final dos anos 60 isso fazia sentido, já que era para eles serem meio hippies, mas admito que atualmente isso soa meio estranho.
            De qualquer forma, Salsicha está dirigindo a van no meio de uma tempestade de areia e, sem conseguir ver bem a estrada, acaba tomando a rota errada. Assim que ele faz isso, uma nave espacial aparece do nada sobre eles, a luz cegando Salsicha e fazendo-o bater em um cacto. Com a van quebrada, Fred, Daphne e Velma vão para uma pequena cidade próxima para procurar ajuda, enquanto Salsicha e Scooby ficam perto da van. Nisso, eles avistam uma lebre-antílope (claro, por que não?), que rouba um de seus biscoitos Scooby. Salsicha e Scooby correm atrás dela, mas ela entra em uma caverna com um brilho misterioso dentro. E não se preocupe quanto à lebre-antílope: Ela só aparece mais uma vez na última cena. Porque os criadores do filme insistiram em fazer Salsicha e Scooby irem atrás de uma criatura folclórica ao invés de uma lebre comum, se a importância para o enredo seria praticamente a mesma, eu não sei.
            O que eu sei é que mal eles encontram a caverna aparecem atrás deles dois alienígenas. Hora da perseguição enquanto a música-tema toca!

            Salsicha e Scooby conseguem alcançar o resto da turma em uma cidadezinha e os avisam sobre os alienígenas. De fato, os habitantes da cidade parecem habituados com os relatos de pessoas que dizem tê-los visto, desde que o governo americano instalou perto dali uma base com satélites para busca de formas de vida alienígena (eu não vejo nada de suspeito nisso, e você?).
            Sem conseguir alguém que concerte a van até o dia seguinte, a turma decide passar a noite na cidadezinha e aproveitar para investigar o mistério. Salsicha e Scooby, porém, são sequestrados pelos alienígenas. Após mais uma perseguição, eles acordam na manhã seguinte no meio do deserto sem qualquer lembrança de como foram parar lá. Mas eis que aparece para ajuda-los Crystal, uma garota que se diz fotógrafa, acompanhada de sua cadela Amber. Como é de se imaginar, Salsicha e Scooby imediatamente se apaixonam por elas.

            Como imagino que dê pra ver, Crystal se veste como uma hippie. E não só se veste, mas fala como uma hippie também. Supõe-se que isso seja uma homenagem ao fato de Scooby-Doo ter sido criado nos anos 60 (embora, para o crédito do filme, a explicação que ele dá no final para o porquê de ela se vestir assim é um tanto engraçada). Uma evidência que aponta para isso é quando Salsicha, uma vez de volta à turma, tem um delírio/número musical em que ele se imagina casando com Crystal e “enchendo a casa deles com coisas de 1969”, como ele canta. Não importa se combinava com a rima ou não, é um tanto quanto uma “coincidência” terem escolhido justamente o ano em que estreou a primeira temporada de Scooby-Doo.

            De todos os filmes de Scooby-Doo que assisti até agora, esse é provavelmente o que mais se parece com um episódio da série original estendido para um longa-metragem: Você tem o lugarzinho no meio do nada e cheio de gente esquisita que serve de ambientação, a turma que do nada esbarra com um mistério, as provas jogadas aqui e ali que levam à solução, o objeto ou local que parece ser de grande interesse do monstro, tudo isso misturado com perseguições, piadas, comida e música. Junte a isso alguns sustos leves, nada assustador demais, e um desenvolvimento de personagens que começa e termina dentro do filme, nada que afete a turma permanentemente, e temos a proposta de “Scooby-Doo e os Invasores Alienígenas”. Pessoalmente, não é o caminho que eu seguiria, mas de certa forma entendo o que os criadores do filme queriam com isso: Por anos Scooby-Doo foi se afastando cada vez mais de sua proposta original, com os responsáveis pela franquia jogando coisas diferentes para chamar a atenção dos novos públicos que surgiam. Portanto, na hora de idealizar esse filme, eles decidiram não fazer mais coisas novas e ao invés disso criar algo que homenageasse as velhas rotas. Sendo assim, evitarei fazer comparações com os dois filmes anteriores, e tratarei “Os Invasores Alienígenas” mais como algo em si.
            Pois bem, a proposta está dada. Mas, como eu já disse antes, o que realmente importa em um filme não é a proposta em si, mas como ela é feita. O que fazem então em “Os Invasores Alienígenas”?

            Em primeiro lugar, mais uma vez temos a tão elogiada (pelo menos por mim) animação do estúdio japonês Mook Animation, porém dessa vez com um toque a mais: Essa é a primeira animação de Scooby-Doo a usar imagens computadorizadas. Não é muita coisa, elas só são usadas durante os créditos iniciais e em alguns efeitos de luz aqui e ali durante o filme, mas ainda assim dá um pequeno toque especial na animação.
            É quase impossível falar desse filme sem discutir dois de seus elementos principais: Suas canções e Crystal. Falemos primeiro sobre as canções. E eu sei que prometi não comparar esse filme com os dois anteriores, mas a verdade é que comparadas às canções deles... As de “Os Invasores Alienígenas” são um tanto ruinzinhas. Sim, vocês leram certo: Apesar de tudo que falei mal sobre as Hex Girls em “O Fantasma da Bruxa”, elas ainda eram melhores do que as canções desse filme. Por quê? Porque ao menos eu ainda me lembro das canções delas! Eu me lembro das canções das Hex Girls em “O Fantasma da Bruxa”, eu me lembro das canções de “Ilha dos Zumbis”... Assim que terminei de assistir “Os Invasores Alienígenas” tentei cantarolar as canções do filme e não me veio nada à cabeça! O máximo que me lembro são trechos da letra da canção que Salsicha canta em seu delírio sobre Crystal, mas mesmo assim não me pergunte qual era a melodia. A coisa que mais me lembro dessa cena é Fred vendo a cara de viajado de Salsicha e cheirando a garrafa d’água dele (eu vi o que você fez aí, filme!).
E aliás, mesmo a letra dessa canção, eu provavelmente só me lembro devido ao quão melosa e brega ela é. Não basta Salsicha cantar sobre se casar com Crystal e ter uma casa com ela cheia de coisas hippies, ele tem que ir além e cantar sobre ter um filho com ela! Nessa hora eu simplesmente olhei para a tela e disse “Ok, cara, relaxe aí, você só trocou uma conversinha de cinco minutos com essa garota, não é pra tanto!”.

                E então temos Crystal. Pessoalmente, eu não tenho nada contra ela como uma personagem, aliás acho que ela em si é uma das melhores coisas do filme, mas me incomodou um pouco o quanto que o filme tenta fazer você dizer “Oh meu deus, Salsicha tem um interesse amoroso!”. Grande coisa: Salsicha já teve uma namorada antes na franquia. Duas vezes, aliás! Uma sem nome especificado em um episódio de 1982

                E outra, Googie (não estou brincando, esse era o nome dela), no especial de TV “Scooby-Doo e o Lobisomem”, de 1988.

            Eu não estava brincando quando disse que assisti tudo de Scooby-Doo.
            A questão é, o simples fato de Salsicha ter um interesse amoroso não é algo tão grandioso assim.

            Agora, o que efetivamente fazem com o romance entre Salsicha e Crystal... Tem seus altos e baixos.
            Começando com os altos. Mesmo não sendo algo totalmente original, o interesse amoroso de Salsicha dessa vez soa sério. Por mais meloso e brega que seja, a química entre eles nesse filme pelo menos parece legítima. E eu realmente não quero estragar o final do filme, mas digamos que a conclusão que o filme arruma para esse romance entre eles é legitimamente triste.
            Agora quanto aos baixos, o principal deles sendo: O romance entre eles se distancia muito do enredo principal. Fisicamente, aliás: Em um dado momento, Salsicha e Scooby simplesmente largam Fred, Daphne e Velma na cidade e vão com Crystal e Amber tirar fotos no deserto. E a turma só se reúne de volta perto do final do filme! É como se fossem dois filmes completamente diferentes um do outro: Um sobre Fred, Daphne e Velma resolvendo um mistério envolvendo alienígenas e outro sobre esse romance entre Salsicha e Crystal. Eu não sou nenhum roteirista profissional, mas não seria mais interessante manter todos juntos ao longo do filme, para mostrar a interação entre os personagens e a evolução do romance à medida que eles vão solucionando o mistério principal? Fica a dica aí.

            Outro grande problema desse romance é que, bem... Ao final, depois que você digere o filme, você percebe que esse romance todo não afeta muito o enredo. Seria perfeitamente possível tira-lo do filme e teríamos um típico episódio de Scooby-Doo, apenas talvez um pouco mais longo. Quem já assistiu esse filme e gostou vai provavelmente ficar enfurecido comigo por dizer isso, ainda mais considerando a surpresa que o enredo reserva para o final envolvendo Crystal. E eu entendo isso, eu próprio gostei dessa surpresa: Foi algo diferente e com um teor dramático pouco visto na franquia. Mas tire ele, e o que você terá é um típico episódio de Scooby-Doo, nada mais, nada menos. O filme até mesmo arruma uma solução no último minuto para que as crianças não terminem o filme chorando (solução, aliás, que eu pessoalmente odiei. Não irei revelar muito, mas digamos que ela faz Salsicha e Scooby parecerem completos insensíveis!).
            Aliás, eis também um dos grandes problemas desse filme: Ele claramente é voltado para as crianças e para as crianças apenas. Em uma época pós desenhos como Animaniacs e a série animada do Batman, que revelaram aos produtores de desenhos animados que estes podiam ser assistidos e apreciados igualmente por crianças e adultos, “Os Invasores Alienígenas” soa como um certo retrocesso. Ainda há uma ou outra piada que adultos entenderão mais que crianças, mas no geral a impressão que dá é que o tempo todo havia algum chato que observava o processo de produção do filme e dizia “Não, não, pense nas crianças, isso aí é pesado demais para elas!”. Assim os sustos são leves, o romance é leve, o humor é leve, até mesmo os alienígenas não são tão ameaçadores assim. Aliás, os guardas da base do governo conseguem ser mais ameaçadores que os alienígenas! Pelo menos eles portam armas!

            E nisso temos o seu maior problema: Em sua tentativa de ser algo mais infantil, seu mistério se tornou absurdamente previsível. Qualquer adulto é capaz de prever seu desfecho há anos-luz de distância (não houve intenção de fazer trocadilho com o tema do filme). Talvez algumas das dicas não sejam tão óbvias para crianças, mas adultos com certeza verão e dirão “puxa, me pergunto se...”.
            Concluindo, não é exatamente um filme ruim, e está longe de ser a pior coisa que a franquia já ofereceu. Mas “Os Invasores Alienígenas” definitivamente apela mais para crianças do que para adultos atrás de um pouco de nostalgia. Para esse segundo caso, definitivamente há maneiras melhores de satisfazê-los.


Avaliação: Não vale a pena

Um comentário:

  1. Eu achei o filme ótimo, mas é aquilo se você gosta de coisas leves vai ver pepa pig que é melhor

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