sábado, 17 de setembro de 2016

Aquarius

Antes que alguém venha me encher o saco: NÃO, não falarei aqui de nenhuma controvérsia política envolvendo este filme, e por dois motivos: 1) Como eu disse em minha crítica de “Stallone Cobra”, discussão política realmente não é minha área, portanto não pretendo e não quero me envolver nisso; e 2) Analiso aqui apenas o conteúdo dos filmes, e embora se possam relacionar as controvérsias com o conteúdo, não é de todo necessário analisa-las para se entender “Aquarius”, e portanto não arriscarei gastar minha paciência respondendo quaisquer comentários políticos que alguém faça (Ha! Como se eu tivesse páginas e páginas de comentários das minhas postagens...).
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            Mas enfim, de qualquer forma, eis aqui o filme sobre o qual todo mundo está falando. E como resumi-lo? Bem, de certa forma a canção de Taiguara que toca durante o filme involuntariamente faz esse trabalho: Quando se pensa bem, “Aquarius” é um filme sobre uma mulher que traz hoje em seu corpo as marcas de seu tempo e no olhar imagens distorcidas; sobre cores, viagens e mãos desconhecidas que trazem a lua, a rua às suas mãos enfraquecidas e vazias, que parecem procurar nuas por alguém pelas luas e ruas na solidão das noites frias; e sobre homens sem medo que aportam no futuro, homens de aço que esperam da ciência, enquanto que ela tem medo, acorda e procura por alguém em seu quarto escuro e inerte como a morte, desesperando-se e abraçando a ausência, que é o que lhe resta, andando morrendo pela vida.
            Apesar de poética, eis aí uma baita descrição do filme, tenho que dizer!
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            A protagonista de “Aquarius” é Clara (interpretada por Sônia Braga), 65 anos, jornalista e escritora aposentada (a internet diz que ela era crítica de música, mas isso fica mais implícito que explícito no filme), viúva e sobrevivente de um câncer de mama que lhe tirou o seio direito mais de trinta anos antes. Clara é a única habitante que resta no Edifício Aquarius, um pequeno edifício antigo de frente para o mar em Recife. Devido a isso, ela a maior parte do tempo sequer sente necessidade de trancar a porta de seu apartamento, e sua rotina consiste principalmente de banhos de mar e ouvir sua gigantesca coleção de LPs (colecionadores com certeza irão babar e ficar com as mãos tremendo diante da estante dela).
            Sua vida, porém, vai ficando cada vez mais abalada pela presença constante de uma empreiteira que pretende comprar o Aquarius para “moderniza-lo” (vulgo demoli-lo e construir um arranha-céus moderno no lugar). Tendo já comprado todos os outros apartamentos do edifício, só lhes falta o de Clara. Esta, porém, se mostra firme e teimosa insistindo em não vender seu apartamento de jeito nenhum, apesar de a empreiteira lhe fazer uma oferta muito acima do mercado. Mas dinheiro algum no mundo convence Clara a vender o apartamento que lhe pertence há décadas, e da qual ela tem tantas memórias. O que ela não imagina é o quão sujo a empreiteira está disposta a jogar para conseguir força-la a vendê-lo, fazendo festas que “acidentalmente” não a deixam dormir, “acidentalmente” sujando o edifício, “acidentalmente” invadindo sua privacidade, e coisas cada vez piores. Mas nada faz Clara desistir, e quanto mais sujo eles jogam, mais ela fica disposta a revidar.
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            Ok, vamos admitir: Essa premissa de “salvar seu lar de tantos anos da companhia corrupta do mal” não chega a ser nada novo no cinema... Mas de uma forma curiosa, o fato de estarmos familiarizados com ela a torna até mais interessante (isso é, claro, quando é bem feita). O primeiro motivo é porque é uma premissa que não só se permite ser adaptada a quase qualquer país do mundo e a quase qualquer época desde que o cinema começou, como também exige estar sintonizada com a realidade que o filme quer retratar; assim, tais filmes nos permitem, através de uma premissa comum, analisar as diferentes realidades de cada lugar e de cada tempo: Se o enredo central de “Aquarius” soa semelhante a, digamos, “Leviatã”, são os detalhes e o desenvolvimento de cada uma das tramas que nos permitem analisar os dois filmes e, assim, comparar a realidade brasileira de “Aquarius” à realidade russa de “Leviatã”.
            O segundo motivo pelo qual essa premissa é tão interessante, apesar de familiar, é que ela geralmente é tão boa quanto seu protagonista; em tais filmes, o importante não é o desenrolar da trama, mas o estudo de personagem do protagonista, dissecar sua personalidade e sua vida para nos fazer entender porque ele não larga de seu osso, o que faz com que ele enfrente empresas poderosas e políticos corruptos por meras quatro paredes que, a princípio, não parecem valer todo esse esforço; ao final, acabamos, através desse estudo de personagem, entendo melhor não apenas sobre o protagonista, mas sobre algum aspecto importante de nossa condição humana.
            E então, como é que “Aquarius” se sai nisso? Afinal, quem é Clara e por que esse apartamento é tão importante para ela?
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            Bem, de uma forma resumida, Clara é uma mulher que está pouco a pouco desaparecendo. Na primeira cena do filme, um flashback, vemos que em 1980 Clara era uma mulher alegre, ativa, de vida social intensa, com um marido que a amava muito e parentes que, cada um a sua maneira, a apoiavam (ou pelo menos tentavam) em sua luta contra o câncer. Enfim, acima de tudo, Clara existia, e seu apartamento é testemunha disso (assim como sua tia, que, no flashback, olha para a mobília e tem memórias um tanto “calorosas” do lugar).
            Atualmente, porém, Clara é uma mulher em vias de desaparecer: Os vizinhos, que antes animavam seu apartamento, mudaram-se todos. Uma repórter que a entrevista ignora um momento em que Clara se abre e insiste em repetir uma pergunta esdrúxula. Os filhos só a vem visitar quando há algo importante ou algum favor envolvido. Um deles inclusive se mostra bastante relutante em lhe mostrar uma foto com seu namorado, apesar de ela aceitar plenamente sua orientação. Seu sobrinho, o parente com o qual ela convive mais, ignora seus conselhos. Sua vida amorosa é um fiasco, pois os homens, assim que descobrem de sua cirurgia de remoção de mama, perdem qualquer desejo por ela. Para piorar, enquanto que em 1980 vemos um casal de adolescentes parando de se beijar para deixa-la passar e, apesar de ela falar que eles podem continuar, ficarem parados, como que em respeito a ela; no presente vemos Clara duas  vezes bisbilhotar pessoas fazendo sexo e estas apenas continuam sem nem notar sua presença!
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            É exatamente por isso que ela se mostra tão ferrenhamente apegada a seu apartamento: Não apenas por causa das memórias, mas porque é uma das únicas coisas no presente que, em meio a um mundo que a ignora cada vez mais, ainda lhe permite manter uma identidade, saber que existe; enquanto ela permanecer em seu apartamento, não desaparecerá totalmente, mas se vende-lo e se mudar para outro lugar “mais moderno e seguro”, como todos querem que ela faça, perderá sua identidade e se tornará apenas uma relíquia do passado, como sua coleção de fotos ou seus LPs. Para ela, mudar para um apartamento “mais moderno” seria como uma ossada que é removida do túmulo para ficar guardada em uma gaveta anônima (para quem ainda não assistiu ao filme, quando assistirem essa comparação fará todo o sentido).
            Eis aí o triste lado da condição humana que “Aquarius” nos mostra: O medo que, no fundo, muitos de nós sentimos de “morrer em vida”, perder nossos vínculos com o resto do mundo e com o que nos torna nós mesmos, tornar-se apenas um fantasma de um tempo melhor que já passou e do qual nada nos resta. Para Clara, porém, ainda resta uma última coisa que a evita de se transformar em um fantasma: Seu apartamento. E pode ter certeza que ela o defenderá até a morte, se necessário.
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            Nisso temos em “Aquarius”, como em todo bom estudo de personagem, a transformação da protagonista do início ao fim do filme. Se no começo Clara se mostra discreta, reservada, parecendo até um pouco encolhida quando atende o dono da empreiteira e seu neto (que, aliás, é interpretado por Humberto Carrão em uma atuação tão passiva-agressiva que até Sônia Braga sente a necessidade de enfatizar isso em uma cena) em sua porta, como uma típica senhorinha acostumada ao auto isolamento, à medida que estes vão jogando cada vez mais sujo e testando cada vez mais a paciência de Clara, ela vai endurecendo, falando mais alto, olhando-os nos olhos e de queixo erguido, deixando a educação de lado e jogando alguns bons e merecidos palavrões na cara deles.
            E o mérito por tal transformação é totalmente de Sônia Braga. Há quem diz que essa é a melhor atuação da vida dela, e embora não tenha o conhecimento necessário para confirmar isso, preciso admitir: Meu, que mulher! Braga é capaz de interpretar tanto o desgaste do lento desaparecimento de sua personagem quanto a força que a resistência à empreiteira lhe dá; tanto a fragilidade de seu isolamento quanto o orgulho de, nas palavras de Rocky Balboa, “ficar frente a frente com alguém dizendo ‘Eu sou’”.
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Ok, essa é uma comparação que eu não esperava fazer, mas quando se para pra pensar, não deixa de fazer um estranho sentido, especialmente comparando com o sexto filme. Afinal, tanto “Aquarius” quanto “Rocky Balboa” possuem um(a) protagonista velho(a) e sozinho(a) que passa os dias revivendo o passado, tornando-se cada vez mais uma sombra do que era antes, sem muitas perspectivas para o futuro e não tendo tantas pessoas com quem conversar de forma mais aberta  – até um desafio surgir e lhe dar novas energias de se impor ao mundo e mostrar que ainda existe.
... Eu devo ter irritado uma boa quantidade de intelectuais com essa comparação, não? Bom, não me arrependo de nada!
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            Mas, infelizmente, “Aquarius” não é um filme perfeito. E o motivo? Bom, posso resumi-lo em apenas três dígitos: 142. Por quê? Porque essa é a duração do filme (em minutos, óbvio)!
            E sinceramente, “Aquarius” não precisava de forma alguma ser tão longo assim. Algumas cenas parecem se prolongar puramente por se prolongar, como uma em que Clara e suas amigas conversam por um tempão em uma espécie de “baile da terceira idade” sobre absolutamente nada (o único ponto importante da conversa sendo quando uma das amigas recomenda um “profissional” a Clara). E até suponho que a ideia do diretor Kleber Mendonça Filho (o mesmo de “O Som ao Redor”) fosse com isso dar uma maior “naturalidade” à cena, e se essa foi a intenção, ela funcionou: Eu de fato me senti como em todas as vezes em que sentei junto com um monte de pessoas que não eram minhas amigas e ficavam conversando entre si, me ignorando e fazendo-me balançar o joelho e esperar para que qualquer coisa de interessante acontecesse!!!! (Desculpe, só más lembranças que preciso soltar) Como se não bastasse, apesar de vários personagens aparecerem ao longo do filme, é possível contar nos dedos quantos são de fato relevantes para a trama. Inclusive, há uma cena em que um personagem que Clara conhecia quando ele era criança aparece apenas para lhe dar um aviso nefasto, dizer uma frase de efeito, e então nunca mais mostrar a cara pelo resto do filme! Por que ele está lá?!
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            Ainda assim, não fico tão furioso com esses momentos “inúteis” a ponto de dizer que eles estragam o filme, pois de certa forma dá para entender o que Mendonça queria com elas, com a maioria seguindo uma espécie de padrão: Algum objeto ou pessoa é apresentado, e isso leva a uma intensa explosão de sentimentos que Clara investiu naquilo ou naquela pessoa. Tais objetos ou pessoas não são especiais pela importância que eles têm, mas pelas memórias a eles ligados, pelas histórias pessoais que eles trazem consigo – Clara chega a dizer isso de forma um tanto explícita em uma cena envolvendo um LP de John Lennon. Nisso, essas cenas conseguem passar, com uma sutileza rara de se ver nos filmes nacionais “intelectuais” (que por vezes, honestamente, chegam a parecer mais com aulas de sociologia), a mensagem central do filme: O que nos falta, acima de tudo, é esse senso de memória, de herança, de que as coisas e lugares valem mais do que apenas seu valor material. Mais do que tudo, esse senso não é importante por mera nostalgia – é ele que nos torna mais fortes, é ele que nos faz importar com o que é nosso e lutar por isso, protestar quando alguém quer tirar aquilo de nós, assim como Clara luta por seu apartamento. Se essa mensagem possui alguma conotação política? Claro que sim! Mas essa interpretação deixarei a vocês.
            ...
            ...
            ...
            Mas sério, 142 minutos?! Eu entendo o que você quer dizer, Mendonça, mas precisa dizer tanto?!
            ... Pensando bem, quem sou eu pra falar isso?


Avaliação: Vale a pena.

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

A Hora do Pesadelo - Os Guerreiros dos Sonhos

            Enquanto que “A Hora do Pesadelo 2” é considerado pela maioria dos fãs como o filme mais irrelevante da franquia (a ponto de ser perfeitamente possível pular direto do primeiro para o terceiro filme sem perder nada, como estou fazendo aqui), “A Hora do Pesadelo – Os Guerreiros dos Sonhos” é um caso um tanto curioso: Por um lado, essa é de fato uma das melhores continuações de terror já feitas, todo mundo admite isso. Mas por outro... Não há muita concorrência para esse título ter um grande valor, não é?
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            Foi nesse ponto que a franquia assumiu o tom que atualmente conhecemos e reconhecemos: Qualquer ambiguidade é deixada de lado, com Freddy Krueger sendo admitido como real, e portanto deixando de ser um bicho-papão inexplicável e tornando-se um personagem de fato, que exige uma maior caracterização. E embora essa inteligência do filme original tenha sido jogada no ralo, “Guerreiros dos Sonhos” não deixa de ter sua própria criatividade, a começar que as mortes aqui não são meros homicídios com um toque de fantasia: A forma como Krueger mata suas vítimas neste filme reflete a personalidade delas e suas fraquezas. Sem falar que a contagem de mortes aqui, embora relativamente baixa, é pelo menos digna do gênero slasher. E no geral, “Guerreiros dos Sonhos” é um filme mais divertido que o original, com frases de efeito, efeitos especiais, estereótipos dos anos 80, seios e, claro, não vamos esquecer sua música-tema cantada pela banda de heavy metal Dokken que é simplesmente viciante (sério, pelo amor de deus, ouçam essa música, não tem como se arrepender!).
            Mas vamos admitir entre nós: Esse filme é tão idiota!
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            Mais uma vez, a estrutura narrativa básica está aí: Um grupo de jovens se vê perseguidos por Freddy Krueger em seus sonhos, quando eles são feridos ou mortos nos sonhos o mesmo acontece no mundo real e blah, blah, blah, já falei disso anteriormente. Mas essa não é a única coisa que “Os Guerreiros dos Sonhos” possui em comum com o primeiro filme. Se você assistiu “A Hora do Pesadelo” (e por algum motivo nunca tocou nas continuações): Lembra-se dela?
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            Isso mesmo, Nancy, a protagonista do primeiro filme, está de volta, mais uma vez interpretada por Heather Langenkamp. Ué, você não achava que ela havia morrido no final do primeiro filme? Como é que ela escapou?! Bom, guarde essas perguntas para si, pois aparentemente seis anos depois dos eventos do primeiro filme (embora “Os Guerreiros dos Sonhos” tenha sido lançado apenas três anos após “A Hora do Pesadelo”. Ou seja, este filme oficialmente se passa no futuro), Nancy está perfeitamente sã e salva como uma residente médica especialista em sonhos (e com sua mecha de cabelo branco no lado errado)!
            Sabe, Wes Craven, eu sei que você não queria que o final do primeiro filme fosse ambíguo, mas isso não é desculpa pra simplesmente ignorar qualquer continuidade!
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            Cito Wes Craven aqui porque aparentemente, após ficar furioso com a New Lines Cinema por transformar seu filme em uma franquia, Craven resolveu aceitar que não havia volta e retornar a ela, co-escrevendo o roteiro e servindo como produtor executivo. E admito que, se o filme tivesse se mantido de acordo com sua ideia original, ele talvez tenha sido um pouco mais interessante. Infelizmente, porém, o estúdio exigiu revisões que mudaram drasticamente o roteiro original (e acabaram por afastar Craven da franquia por mais muitos anos). Nancy aparecer inexplicavelmente sã e salva neste filme, porém, foi uma das ideias de Craven que se mantiveram.
            Mas enfim, aceitando que Nancy está de volta e não há remédio para isso, qual o papel dela em “Guerreiros dos Sonhos”? Bom... Digamos que ela aqui é uma espécie de Mestre dos Magos. Pode soar como uma piada, mas é a verdade: O papel de Nancy em “Guerreiros dos Sonhos” é quase igual ao do Mestre dos Magos em “Caverna do Dragão”, servindo de amiga e mentora para o grupo de jovens assombrados por Freddy Krueger e tentando lhes providenciar conselhos e ajuda, mas não de uma maneira que efetivamente evite que os jovens se ferrem nas mãos do vilão. Soa familiar?
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            Pensando agora, a comparação está longe de ser forçada. Afinal, “Caverna do Dragão” é baseado no RPG Dungeons & Dragons (parando pra pensar, aja tradução forçada!), e “Guerreiros dos Sonhos”... Bem, “Guerreiros dos Sonhos” em muito soa mais como um RPG de fantasia do que como um filme de terror. Nancy até ensina os jovens a utilizarem – não estou brincando – seus “poderes de sonhos”.
            E antes que alguém diga: Não, o primeiro filme não fazia já referência a isso! O que “A Hora do Pesadelo” fazia referência é às habilidades de sonhos, que dentro do contexto do filme é uma forma de “sonho consciente”, que permite às pessoas controlarem o que estão sonhando e assim evitarem pesadelos – algo que faz sentido no mundo real e há relatos de pessoas capazes de tais habilidades! Os poderes de sonhos de “Guerreiros”, porém, são basicamente poderes mágicos que não apenas são individuais de cada personagem, como também são aparentemente imutáveis e variam de acordo com a personalidade de cada um deles... Mais ou menos como as HABILIDADES DE CLASSE DE UM RPG!!!!! Aliás, é até possível dizer qual que é a “classe” de cada personagem: Temos o bárbaro, o mago, a ladina, a monge... E isso em um filme que é supostamente de terror! Eu já disse que esse filme é idiota?
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            Mas de certa forma... Eu entendo quem por aí disser que é justamente isso o charme de “Guerreiros dos Sonhos”. Afinal, deem uma olhada em uma das fotos promocionais do filme:
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            Vendo uma imagem dessas e pensando sobre o que o filme se trata, você deve estar imaginando a mesma coisa que todo mundo imagina ao ver uma imagem dessas: Um grupo de jovens e coloridos estereótipos dos anos 80 que Freddy Krueger acha que vai ser fácil assombrar, mas que decidem dar o troco e juntos descerem o cacete em cima do sr. Cara-de-Pizza, utilizando-se do que havia de melhor em efeitos especiais naquela época. E adivinhem só, é isso que recebemos ao assistir o filme... Embora mais ou menos: Freddy Krueger não tem muita dificuldade em assombra-los, chegando a matar dois deles sem qualquer resistência... E os jovens não ficam muito unidos, separando-se uns dos outros no clímax aparentemente sem motivo algum... E só um ou dois deles conseguem efetivamente dar uma boa porrada em Krueger... Éééééé... Mas os efeitos especiais pelo menos estão lá! E tenho que admitir que são uma visão gloriosa para todos aqueles que já estão com os olhos cansados de tantas imagens computadorizadas: Quase tudo em “Guerreiros dos Sonhos” é feito de forma prática, com animatrônicos, maquiagem, stop-motion, jogos de iluminação e muito, muito esforço. Especialmente a cena em que Freddy Krueger assume a forma de um verme gigante, que até hoje continua impressionante.
            Falando no sr. Cara-de-Pizza, foi a partir deste filme que a New Lines Cinema resolveu mudar a impressão que ele causava. Agora ele já não era apenas um bicho-papão misterioso com poderes inexplicáveis: Agora ele era um personagem com uma personalidade marcante... E poderes inexplicáveis, isso pelo menos se manteve. Em “Guerreiros dos Sonhos”, ele não se contenta em ficar nas sombras, rindo de suas vítimas enquanto as persegue: Ele mostra a cara, tortura os jovens até se cansar, e o tempo todo faz piada da situação, soltando algumas das frases de efeito mais memoráveis da história do cinema de terror (“Bem-vinda ao horário nobre, vadia!”). Nota-se até uma mudança na atuação de Robert Englund, que aqui assume uma voz grossa, menos maliciosa e mais imponente do que no primeiro filme. Mais do que um personagem, em “Guerreiros dos Sonhos” Freddy Krueger assume uma proporção quase mitológica: É nesse filme, por exemplo, que ele é chamado pela primeira vez pela sua famosa alcunha de “O Filho Bastardo de Cem Maníacos”.
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            Tal mudança, porém, veio a um custo caro: É em “Guerreiros dos Sonhos” que Freddy Krueger começa a ficar cada vez menos assustador. E o motivo eu acabei de dizer: É aqui que ele deixa de ser a criatura que te assombra quando você dorme e se torna um personagem, um vilão. E vilões podem até ser intimidantes – e Krueger não é exceção – mas efetivamente assustadores? Para algo ser assustador, certa dose de mistério é quase necessária. Afinal, no fundo a maioria de nossos medos se resume àquilo que não conseguimos compreender – pois o que não compreendemos, não conseguimos evitar. E em “Guerreiros dos Sonhos”, acontece justamente o que não deveria acontecer: Passamos a compreender melhor Freddy Krueger, entender seu modus operandi e o que ele quer – nos é até esclarecido um pouco mais de seu passado.
            Mas de certa forma, não culpo tanto assim o filme por isso. Afinal, já que uma continuação seria feita de qualquer jeito, manter Freddy Krueger eternamente no mistério eventualmente perderia graça, e ansiaríamos por um pouco mais de caracterização. Sendo assim, “Guerreiros dos Sonhos” até que lida com essa transição de monstro para vilão de uma maneira que está longe de ser ruim, dando a Krueger uma personalidade que, embora o deixe menos assustador, é uma das mais memoráveis dos filmes de terror.
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            Ao final, se você quiser ver “Guerreiros dos Sonhos” mais como um filme de fantasia sanguinolento e meio assustador, mas cheio daquela sensação de diversão particular dos anos 80, talvez você tire algum proveito dele. Mas se você decidir assisti-lo porque gostou do primeiro filme e está com gostinho de “quero mais”, você vai acabar se decepcionando. Mas de um jeito ou de outro, se for pra assistirmos o filme, recomendo irmos até os créditos finais, para podermos cantar todos juntos: With the dreeeeeeeeam waaaaaaarriooooooors, don’t want to dream no mooooore, with the dreeeeeeeeam waaaaaaarriooooooors, and maybe tonight, MAYBE TONIGHT YOU’LL BE GOOOOOOONE!!!!!!!


Avaliação: Não vale a pena.
P.S: Não falei sobre isso porque imagino que todo mundo vai pensar a mesma coisa ao assistir o filme, mas... Por que raios o hospital onde o filme se passa não tem câmeras?! Metade dos problemas estariam resolvidos com isso!
Desculpe, precisava soltar isso da minha cabeça.

domingo, 4 de setembro de 2016

Primavera Para Hitler

            Entre todas as coisas que abalaram a internet esta semana (e olha que a lista é longa...), uma delas foi a morte do ator Gene Wilder aos 83 anos, vítima de complicações do Mal de Alzheimer. Em tudo que era lugar, eu via notícias do tipo “Morre ator que interpretou Willy Wonka”, “Morre Willy Wonka de ‘A Fantástica Fábrica de Chocolate’”, “Gene Wilder, ator que viveu Willy Wonka, falece aos 83 anos”.
            E a minha reação a tudo isso foi simplesmente: “Sério?! É só isso que se lembram dele?! Willy Wonka?! Ninguém menciona que ele foi também o Jovem Frankenstein?! Ou todos os filmes que além de atuar ele também escreveu e dirigiu?! Ou então seu papel como Leo Bloom em ‘Primavera Para Hitler’, pelo qual ele ganhou sua única indicação ao Oscar como ator?!”.
            Pera aí...
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            É, acho que se for pra fazer uma homenagem à carreira de Gene Wilder, um bom lugar para se começar é esta comédia. Afinal, ela foi vários “primeiros” para ele como ator: Foi seu primeiro papel significativo em um filme (seu único outro papel nos cinemas até então havia sido como um refém em “Bonnie e Clyde”); o primeiro filme de sua longa parceria com o diretor Mel Brooks, que renderia mais três outros filmes (“Banzé no Oeste”, “O Jovem Frankesntein” e “O Irmão Mais Esperto de Sherlock Holmes”); e, como eu já disse, sua primeira indicação ao Oscar e única como ator (mais tarde ele, junto com Brooks, seria indicado ao Oscar de Melhor Roteiro Adaptado por “Jovem Frankenstein”). E embora ele tenha aqui um papel coadjuvante, este é de grande importância por ser o verdadeiro “foco empático” do filme.
            O protagonista em si é Max Bialystock (interpretado por Zero Mostel), um produtor da Broadway que já foi grande, porém agora está à beira da falência, a ponto de vestir um cinto de papelão e ter que namorar velhinhas ricas para conseguir dinheiro para suas peças, pois ninguém mais quer investir nelas. É justamente quando ele está com uma delas que aparece em seu escritório Gene Wilder na forma do contador Leo Bloom, para fazer suas contabilidades.
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            Quando descobre um pequeno furo nas contas de Bialystock envolvendo o orçamento superfaturado de uma peça que foi um fiasco, Bloom acaba tendo uma epifania: É possível um produtor ganhar mais dinheiro com uma peça ruim do que com uma boa. Qual a lógica disso? Simples: Se o produtor conseguir convencer pessoas a investirem muito mais dinheiro em uma peça do que é realmente necessário para produzi-la, mas ela acabar sendo tão ruim que é cancelada logo após a estreia, os investidores não se darão ao trabalho de ir atrás de suas porcentagens do lucro dela (afinal, a peça presumidamente terá dado prejuízo). Assim, o produtor ao final terá um orçamento sobrando com o qual ninguém está interessado, e tudo que ele precisa então fazer é não declarar nada disso no imposto de renda.
            E se você acha que essa é uma lógica furada e que na vida real algo parecido jamais seria possível... Apenas leia minha crítica de “A Reconquista” para perceber o quando essa sátira do show business está longe de ser implausível.
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            De qualquer forma, a epifania de Bloom imediatamente chama a atenção de Bialystock, que resolve pôr o esquema em prática encontrando uma peça que seja um fracasso certo; namorando velhinhas até arrecadar US$ 1 milhão a mais do que o necessário para se produzi-la; não declarando o dinheiro extra no imposto de renda; e, assim que a peça estrear e, devido à sua ruindade, for cancelada, fugindo com o dinheiro para o Rio de Janeiro (porque né ¯\_()_/¯ ). Para isso, ele precisaria da ajuda de Bloom para que este faça a parte das contabilidades. A princípio, Bloom fica histérico e hesita em partir para a desonestidade com medo de ir pra prisão, mas depois que Bialystock o convence do quão vazia é sua vida contando o dinheiro de pessoas mais ricas que ele e que o dinheiro lhe permitiria ostentar a vida que ele sempre quis, o tímido contador aceita participar do plano, e os dois logo formam um tipo estranho de amizade nascido do puro interesse egoísta.

Só falta, então, começar os preparativos para a produção da pior peça do mundo, que eles encontram na forma de “Primavera Para Hitler”, uma farsa estrelando Adolf Hitler e Eva Braun como protagonistas e fazendo uma explícita apologia ao nazismo, escrita por um ex-soldado alemão (interpretado por Kenneth Mars) que se mantém fiel a seus ideias a ponto de vestir um capacete militar em plena luz do dia. Como se isso não bastasse, Bialystock e Bloom conseguem ainda contratar o pior diretor da Broadway (interpretado por Christopher Hewett), que tem a insana ideia de transformar a peça em um musical, e para o papel de Hitler descobrem por acaso L.S.D., um cantor hippie tão estúpido que é capaz de esquecer-se do próprio nome (interpretado por Dick Shawn).

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            Uma coisa tenho que dizer, Mel Brooks com certeza merece reconhecimento por ter conseguido o feito de propositalmente ter feito tudo em “Primavera Para Hitler” da pior forma possível: Quando você acha que um musical sobre Hitler é a coisa de mais mau-gosto que é possível oferecer, Brooks consegue dar um jeito de piorar a situação, a ponto de, quando o primeiro número musical acaba, você está tão pasmo quanto o público. Os cenários e figurinos são mal feitos, as letras são ofensivas, as falas beiram até ao fascínio de tão absurdas que são, e as atuações... Meu deus, as atuações...

            Pera aí, vocês acham que estou falando da peça?!

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            Eis a grande sacada de “Primavera Para Hitler”: Ao final, percebe-se que a insanidade da peça é apenas um reflexo da inquieta insanidade de seu processo de produção, e daqueles envolvidos nele. Na verdade, depois de ver tudo o que vimos durante o processo de produção retratado no filme, a peça em si quase não chega a nos chocar (quase...): Se o público fica literalmente boquiaberto com os figurinos, cenários, letras, atuações e o próprio fato de estar assistindo um musical sobre o nazismo, nós já ficamos tão boquiabertos quanto durante a primeira hora do filme, não conseguindo acreditar no que vemos: Quando achamos que temos uma noção de qual seria a pior peça já escrita, eis que o filme nos traz algo ainda pior; quando achamos que temos uma noção de qual seria o pior diretor possível, eis que o filme nos traz algo ainda mais “peculiar”, nas palavras de Bialystock; quando achamos que temos uma noção de qual seria a pior performance que já apareceu na face da Terra, eis que o filme nos traz L.S.D. e seus constantes improvisos (que são na maior parte improvisos do próprio Shawn).

O fato de “Primavera Para Hitler” ser tão ruim fora quanto dentro do palco bem possivelmente irá afastar alguns, como fez quando foi lançado em 1968 (em sua estreia, críticos destruíram o filme, que acabou também sendo uma decepção de bilheteria). E mesmo que não afaste, admito que seja um tanto desconfortável assistir um filme em que alguém canta “Don’t be stupid, be a smartie/ come and join the Nazi party!”. E considerando o quão próximas as tragédias do nazismo ainda eram naquela época, o desconforto devia ser ainda maior. Quero dizer, imaginem se alguém atualmente fizesse um filme com uma premissa semelhante, mas ao invés de um musical sobre o nazismo os produtores estivessem tentando fazer um musical sobre, digamos, o 11 de setembro? Só pensar nisso já soa errado, não?

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Felizmente, quase quarenta anos permitiram que os cinéfilos atuais vissem além da ofensa e da ruindade, e percebessem o quanto tudo isso, até mesmo o desconforto, é proposital de uma forma bastante ousada, pois ao fazer uma comédia lidando com o nazismo a ideia de Mel Brooks não era desrespeitar ninguém além daqueles dos quais o musical dentro de seu filme lidava: Os próprios nazistas, que em “Primavera Para Hitler” têm qualquer seriedade arrancada deles e, assim, são jogados ao chão, vistos como loucos ridículos que merecem ser ridos. Poucos, mesmo atualmente, teriam a coragem de fazer algo neste nível, fazendo o público passar a ver o filme com mais bom-humor e uma mente mais aberta.

            Mas o mérito por “Primavera Para Hitler” não é puramente de Mel Brooks: O choque cômico não seria possível se os atores não tivessem entrado na brincadeira, deixando qualquer sutileza de lado e assumido seu lado mais exagerado, a tal ponto que, mesmo aqueles que entendem bem inglês acharão o filme quase incompreensível sem legendas: Temos Zero Mostel gritando vigorosamente suas falas 90% do tempo enquanto esbugalha os olhos em desespero, Christopher Hewett parecendo quase selvagem de tão excêntrico (quando Bialystock e Bloom vão à casa do diretor para convencê-lo a entrar na peça, Bialystock dizer a Bloom “acena o cigarro dele, ele gostou de você” como se o diretor fosse algum animal arredio), e Dick Shawn fazendo uma “atuação-dentro-da-atuação” que beira ao indescritível. Se a falta de sutileza das atuações não ajuda, temos ainda Kenneth Mars imitando um sotaque alemão, Lee Meredith (que interpreta a “secretária” de Bialystock) imitando um sotaque sueco, e Andreas Voutsinas (que interpreta o secretário do diretor) reforçando seu sotaque grego.

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            E em meio a toda essa insanidade, eis que temos Gene Wilder. Entre todas as atuações, a dele é a mais comedida (a maior parte do tempo, pelo menos). Não que ele não seja engraçado; pelo contrário! Quero dizer, olhe a cara dele!

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            Vá dizer que essa cara de Harpo Marx sozinha não te faz rir nem que seja internamente!

            Mas ainda assim, o personagem de Wilder é definitivamente aquele com o qual o público mais se identifica, de personalidade tímida (embora propenso a ataques histéricos) e fazendo uma constante cara de “Eu não pertenço a este lugar. P-por favor não me toque, você está invadindo meu espaço particular” toda vez que encontra um novo personagem completamente louco. E é assim que ele se torna o que chamei no começo desta crítica de o “foco empático” de “Primavera Para Hitler”, personagem de papel curiosamente importante em comédias neste estilo. Afinal, quando sua comédia se passa em um ambiente caótico, onde nada parece fazer muito sentido e os personagens parecem fazer o que bem lhes dá na telha, é bom ter algo em que nos ancorar, algo com que nos identifiquemos para não nos perdermos em meio ao turbilhão de loucura do filme.

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Não que toda comédia sem este papel seria obrigatoriamente ruim: Os Irmãos Marx, por exemplo, constantemente faziam comédias sem qualquer foco empático, onde apenas a anarquia reinava; porém, embora eu goste dos filmes deles, compreendo perfeitamente quem se sente confuso com tanta aleatoriedade reunida e nem uma única coisa que faça sentido. Em “Primavera Para Hitler”, porém, é Gene Wilder que dá essa pequena presença de sentido, como uma Alice que nos guia através de um País das Maravilhas onde nada segue qualquer lógica (uau, eu não esperava fazer essa comparação); curiosamente, um papel exatamente contrário ao que ele interpretou mais tarde em “A Fantástica Fábrica de Chocolate”, onde ele era o grande foco de insanidade do filme frente à timidez e/ou histeria dos outros.

 


Avaliação: Vale a pena.

terça-feira, 30 de agosto de 2016

A Hora do Pesadelo

            É curioso como que, mais do que em qualquer outro gênero, as franquias de terror tomam rumos completamente diferentes do inicialmente proposto pelo filme original. Pegue, por exemplo, a franquia “Sexta-Feira 13”: Que imagens vêm à cabeça de quem nunca assistiu aos filmes ao ouvir dela? Obviamente elas envolverão um zumbi assassino vestindo uma máscara de hóquei sobre o rosto e de facão na mão, com um ódio particular por adolescentes. É uma imagem tão forte em nosso imaginário coletivo que ficamos surpresos ao assistir pela primeira vez o “Sexta-Feira 13” original e ver que ele é completamente diferente desta imagem.
            O mesmo acontece com o que é considerada a grande rival da franquia “Sexta-Feira 13”, “A Hora do Pesadelo”: De tão acostumados com o que ficou estabelecido como sendo conceitos essenciais a ela, ficamos até um pouco confusos com o quão vagamente estes mesmos são abordados no primeiro filme.
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            Claro que a discrepância aqui não é tão grande quanto a de seu rival. Afinal, os elementos considerados essenciais à franquia ainda estão todos lá: Um grupo de adolescentes se vê assombrado em seus pesadelos por um homem desfigurado chamado Freddy Krueger. Sempre que este os ataca, porém, as marcas e ferimentos permanecem no mundo real ao acordarem, e não demora muito para eles perceberem que a mesma lógica se aplica caso Freddy os mate em seus sonhos.
            Tal premissa, porém, não é feita da forma como o espectador atual esperaria.
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            Em uma era em que todo filme com uma premissa minimamente absurda tem que expor sua lógica nos mínimos detalhes com medo de deixar para trás algum furo no enredo que deixe o público confuso, “A Hora do Pesadelo” nos dá um soco na cara e nos retorna aos velhos tempos (mais conhecidos como anos 80) em que filmes jamais expunham sua própria lógica, ao invés disso nos jogando direto em uma cova dos leões sem de fato qualquer pé nem cabeça, nenhuma explicação sendo realmente dada, e a pouca que aparece vindo lentamente ao longo do filme; uma época em que quarenta minutos de história de origem de um super-herói podiam ser resumidos apenas em “Faço isso porque ninguém mais faz” (sim, estou falando de você, Nolan).
            “A Hora do Pesadelo” não é diferente: Demora quase metade do filme para sequer descobrirmos o nome da figura misteriosa que persegue os protagonistas, e mesmo assim há um hiato antes de nos ser revelado quem ele é. Quaisquer “porquês” ou “comos”, porém, são deixados completamente de lado: Jamais ficamos sabendo como é que Freddy Krueger consegue entrar nos sonhos de suas vítimas, ou porque ele só passou a ataca-las a partir do momento em que o filme começa, e não antes. Nosso trabalho é apenas aceitar que é assim e ponto, qualquer explicação sendo deixada a cargo do próprio espectador... Ou então das continuações.
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            Então como é que um filme com um aspecto narrativo que pesa tão contra ele (afinal, vamos admitir que ser jogado na cova dos leões pode até ser interessante, mas está longe de ser uma experiência agradável) consegue não apenas se salvar, mas ainda ser considerado um dos melhores e mais importantes filmes de terror de todos os tempos? Bom, pelo simples motivo de que sua premissa permite isso. Mais do que permite: Incentiva isso! Afinal, não vamos esquecer que a premissa de “A Hora do Pesadelo” gira em torno de sonhos. O que são sonhos que não momentos em que somos justamente jogados em mundos cuja lógica está muito além de nossa explicação racional? Não é isso que os tem tornado tão fascinantes à humanidade por milênios?
            E é assim, meus caros, que “A Hora do Pesadelo” deixa de ser um filme vago e até meio confuso e torna-se inteligente, talvez até genial.
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            Em primeiro lugar, há a ambientação do filme, sobre a qual muito já se falou. É preciso ao falar disso se lembrar que “A Hora do Pesadelo” foi lançado em 1984, época em que, após o fim da onda hippie nos anos 60, as pessoas voltavam enfim a questionar o “sonho americano” (preparem-se para os trocadilhos, pois há muitos outros por vir). Sendo assim, os protagonistas iniciam o filme como adolescentes tão comuns como adolescentes podem ser, sem nenhum grande problema, vivendo em um subúrbio aparentemente perfeito de uma cidade aparentemente perfeita em Ohio (embora tenha sido filmado inteiramente em Los Angeles, mas que seja). A vida deles é o ideal com o qual a classe média americana tanto sonhava, uma bolha onde a maior preocupação é ter um passe para andar pelos corredores da escola.
            Porém, assim que os pesadelos começam, os adolescentes enfim passam a escavar mais a fundo e descobrir, com o perdão da palavra, as m&rd@s que sustentam a bolha em que vivem, especialmente alguns eventos sombrios nos quais seus pais se envolveram para protege-los e que esconderam justamente para manter essa bolha de aparente perfeição, e dos quais Freddy Krueger retorna nos pesadelos literalmente como um fantasma do passado. Falando em pesadelos, ao serem assombrados por Krueger os adolescentes passam a também perceber os próprios pesadelos de suas vidas familiares dos quais estavam até então completamente alienados, especialmente na forma de seus pais, que vão se revelando como alcoólatras, negligentes e/ou necessitando de remédios psicoativos. Em outras palavras, é Freddy Krueger que faz com que eles saiam de seu mundo de sonhos e acordem para a realidade.
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            Eis aí também outro ponto interessante do primeiro filme de “A Hora do Pesadelo”: A forma como ele retrata Freddy Krueger. Claro que, fisicamente, ele é igual a como o reconhecemos no imaginário popular, com seu chapéu, sua blusa de listras vermelhas e verdes, seu rosto que mais parece uma pizza de pepperoni e, claro, não vamos esquecer de sua temível luva com lâminas nos dedos. Tão famosa quanto sua aparência ficou também sua personalidade sarcástica e espirituosa que parece nunca envelhecer.
            Então eis a surpresa quando se percebe que pouco disso aparece em “A Hora do Pesadelo”. Claro que eventualmente vemos seu rosto queimado, produto da genial maquiagem de David Miller, porém a maior parte do tempo Krueger permanece nas sombras, aterrorizando suas vítimas com sua silhueta e o angustiante arranhar de suas lâminas. Como se isso não bastasse, vemos pouco de sua personalidade espirituosa, tendo no máximo duas ou três falas de maior efeito, a maior parte do tempo apenas rindo maliciosamente – embora eu tenha que admitir que o ator Robert Englund seja realmente muito bom nisso: Sempre que ele ri enquanto corre atrás de suas vítimas, sabemos que elas não têm para onde escapar – e que ele também sabe disso. Como se não bastasse, sua contagem de mortes ao longo do filme é consideravelmente baixa se comparada com a de outros vilões de filmes slasher, e só duas delas possuem o teor gráfico digno do gênero. Toda essa pouca presença faz com que Freddy Krueger seja até menos que um personagem em “A Hora do Pesadelo”, exercendo mais o papel de um bicho-papão.
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            E de uma forma muito curiosa... É exatamente isso que faz com que ele funcione dentro do contexto do filme. Afinal, não vamos esquecer que Freddy ataca suas vítimas dentro de seus sonhos. E tirando algumas exceções, sonhos raramente são coisas muito bem definidas ou desenvolvidas. Sendo assim, é perfeitamente condizente o vilão de “A Hora do Pesadelo” aparecer pouco e falar menos ainda, e não ter muita explicação dada para suas aparições ou seus poderes. Afinal, tente se lembrar dos pesadelos eu você já teve: Você sente que há algo te observando, mas ao olhar para trás não vê nada; você ouve um arranhar de metal ou uma risada, mas não consegue identificar de onde vem; talvez você até veja uma criatura ameaçadora vindo te atacar, mas é difícil descrevê-la muito bem, geralmente sendo apenas algo como uma sombra ou até algo que muda um pouco de forma; e, o mais importante de tudo, os monstros que te perseguem em seus pesadelos não são muito complexos, não precisam de motivos para te atacar ou de explicações, eles apenas aparecem em seus sonhos, te atacam e isso é tudo.
            É exatamente assim que Freddy Krueger age no primeiro “A Hora do Pesadelo”: Não como um personagem complexo, com uma presença marcante, mas devidamente como a criatura que te assombra quando você dorme.
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            “Ah, mas isso não é um sonho de verdade, é um filme. E filmes devem ter nem que seja um mínimo de lógica ou explicação!”. Eu até concordaria com isso... Se não fosse por uma pequena pergunta: Onde é que termina o sonho e começa o filme em “A Hora do Pesadelo”?
            Eis aí a grande genialidade deste filme. Se você achou o final de “A Origem” ambíguo quanto a o que é sonho e o que é realidade, é porque Christopher Nolan tinha muito o que aprender com “A Hora do Pesadelo” (nota: Me refiro ao filme e não ao pessoalmente ao diretor Wes Craven porque a maior ambiguidade foi uma exigência do estúdio... O que por uma vez foi algo positivo!). Quando o filme começa, os limites entre o sonho e a realidade parecem bem definidos: Quando eles estão acordados, tudo está bem, e quando eles deitam e fecham os olhos eles começam a sonhar e Freddy Krueger ataca. Porém à medida que o filme progride, essa linha entre sonho e realidade vai ficando cada vez mais tênue: Dois personagens estão conversando entre si, no que parece bastante real, mas de repente nos é revelado que isso não passava de um sonho. Algum tempo mais tarde, no que você jura que é a realidade, Freddy Krueger surge do nada! Pera aí, mas quando que a personagem dormiu?! Onde é que começa o sonho?! E onde é que ele termina?!
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São perguntas que vão te assombrando cada vez mais, até que você finalmente chega ao ponto de questionar a própria realidade aparentemente perfeita em que os personagens vivem, e se o filme inteiro não passa de um grande sonho! Dentro desse contexto, não é até melhor que o filme seja vago e propositalmente confuso? Sei que não é algo que necessariamente agradará a todo mundo, e a alguns talvez até espante mais que o rosto queimado de Freddy Krueger, porém ainda assim o fato de tal questionamento ser deixado em aberto, e caber a cada espectador decidir o que é real em “A Hora do Pesadelo” e o que não é, dá a ele uma inteligência que poucos filmes slasher possuem... Algo que suas continuações arruinariam, mas essa, meus caros, é outra história.


Avaliação: Vale a pena.

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Vale a zoeira: Stallone Cobra

            Sim, não me confundi: Este é o nome brasileiro do filme. Suponho que quem quer que tenha sido responsável por isso achou que como o nome de Stallone no pôster possui o mesmo tamanho de fonte que o título, os dois deviam ser uma coisa só. Embora, de certa forma, isso torna o filme mais engraçado: Imagine se o protagonista é de fato Stallone, que no seu tempo livre trabalha secretamente em uma divisão de elite do departamento de polícia de Los Angeles sob a identidade de Marion Cobretti (sim, esse é o nome do personagem dele)! Admitam, isso tornaria este filme muito mais interessante!
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            Eu sei que há aqueles que acham este filme divertido, mas sendo bem sincero... Eu concordo com vocês! “Stallone Cobra” é a epítome do filme de ação dos anos 80: Quase todo clichê que possa ser associado ao gênero está aqui, e nada mais. Mas sejamos francos entre nós: Justamente por isso não dá pra levar este filme a sério. Mesmo aqueles que falam que ele é bom são incapazes de dizer isso em voz alta sem dar um sorrisinho irônico. Então não vamos ficar ofendidinhos por eu já partir do princípio de que ele é ruim e só pode no máximo valer a zoeira, ok?
            Pra começar, é quase impossível falar de “Stallone Cobra” sem trata-lo como um produto de seu tempo. E não estou dizendo isso apenas por ele ter a frase “anos 80” estampada em praticamente toda cena: Cabelos grandes, cigarros, gangues em jaquetas de couro, policiais estereotipados, paranoia conservadora americana, um herói que anda por aí com sua arma à mostra sem problemas, trilha sonora pop com efeitos eletrônicos... Só faltou cocaína pra fechar o bingo!
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            Mas não basta o estilo de “Stallone Cobra” ser anos 80 até a medula: As ideias que ele tenta passar também tem que estar perfeitamente inseridas dentro dos ideais da era Reagan. Basicamente a mensagem do filme é que se a lei se importar e agir sempre de acordo com regras que criminosos podem livremente ignorar, a polícia estará sempre em desvantagem. É uma discussão que admito que é interessante e que já rendeu sua dose de filmes polêmicos (“Tropa de Elite” sendo provavelmente o maior representante aqui em terras tupiniquins), porém, sendo um filme de ação dos anos 80 a solução que “Stallone Cobra” encontra é... Bem, f#d@-se julgamentos e direitos civis, bora usar força letal mesmo quando ela é desnecessária e matar todo mundo, porque afinal a lei é cheia de besteiras e o mundo é cheio de canalhas!
Pode soar como uma piada, mas fale isso em um tom mais sério e eis a moral da história de “Cobra”. Sério! O filme até começa com uma narração de Stallone dando estatísticas de crimes nos EUA em um tom seco e durão... Cujos números, se comparados com as reais estatísticas de crimes da época, são um pouco exagerados (no mínimo, são sempre arredondados pra cima), mas a ideia é clara: Criar um sentimento de paranoia no público e fazer este pensar “se ao menos a polícia pudesse apenas... livrar o mundo desses criminosos, se você me entende...”.
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            Ok, talvez eu esteja me metendo um pouco demais em discussão política aqui, o que não é minha área, mas o grande problema em “Stallone Cobra” não é tanto a mensagem que quer passar (isso fica a critério de cada um), e mais como que passa ela. Afinal, não vamos esquecer que este é um filme de ação dos anos 80. Não estamos aqui pra ver temas polêmicos sendo debatidos de forma inteligente; estamos aqui pra ver Stallone metralhar onda após onda de criminosos. E com onda após onda, quero dizer bem isso: A contagem de mortes de Marion Cobretti (meu, esse nome realmente soa estúpido! Melhor chama-lo de Cobra mesmo) é de 41... E o filme tem apenas 87 minutos! Aliás, pensando agora, ele mata sozinho pelo menos o dobro de pessoas que o vilão do filme, interpretado por Brian Thompson.
            Pera aí, Brian Thompson... Onde é que eu o vi antes...
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            Ah, é... Ele estava nesse filme...
            Mas tudo bem, o filme diz, não há problema em Cobra matar toda essa gente; afinal, todo criminoso que ele encontra em seu caminho faz parte desse culto anarquista que “mata os fracos para que os fortes sobrevivam”. É sério! Esse é o nível da “discussão política” que “Stallone Cobra” tenta desenvolver ao longo de sua duração!
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            Aliás, falemos um pouco sobre os vilões deste filme, porque a impressão que se tem é de que absolutamente tudo em cima deles foi feito do jeito errado. Além de serem um culto anarquista que mata qualquer um que considere fraco apenas para justificar que Cobra os mate a todos sem qualquer problema, eles não são exatamente dos mais inteligentes. Especialmente o líder: Após uma perseguição de carro em que o carro de Cobra é destruído, ele simplesmente vai embora sem checar se seu inimigo está morto; e no confronto final, ele diz que Cobra não irá atirar nele pois assassinato vai contra a lei e portanto Cobra teria que prendê-lo mesmo depois do mesmo matar sozinho seu bando de motoqueiros quase inteiro! Digamos que ele é meio lento, não?
            “Stallone Cobra” afirma ainda que o trunfo deste culto é o fato de seu modus operandi não deixar nenhum padrão distinguível... Porém o filme também deixa claro que os ferimentos das vítimas são consistentes entre si; e embora, segundo um noticiário de TV, suas vítimas incluam qualquer um, desde empresários até imigrantes asiáticos e idosos, durante os primeiros 25 minutos os vemos atacando quase exclusivamente mulheres jovens indefesas. Desculpe-me, mas ambos não lhes soam como padrões um tanto óbvios?! E se for pra tentar defender este filme é até possível dizer que um caso com padrões assim ainda não foi resolvido porque o culto possui uma membra infiltrada na polícia, mas honestamente... Não, isso não é desculpa. Aliás, se tudo isso não faz o culto parecer idiota, o que dizer dos policiais (inclusive o próprio Cobra e seu parceiro, Gonzales, interpretado por Reni Santoni, e que, como todo ajudante de Stallone, acaba se ferrando. Sério, qual é o problema de Stallone com seus parceiros?!), que, entre outras burrices além de não perceberem tais padrões mesmo depois de 16 assassinatos: 1) Abandonam a sobrevivente de um ataque do culto (interpretada por Brigitte Nielsen) sozinha no hospital sem qualquer segurança; 2) Não percebem que o líder do culto está andando coberto de sangue e armado de uma faca pelo hospital; 3) Deixam Cobra levar a sobrevivente para fora da cidade porque “se ele acha que aqueles psicóticos irão segui-lo, deixe-o ir, pelo menos os temos fora da cidade” e não usam isso para fazer absolutamente nada a respeito! Eu sei que a intenção de “Stallone Cobra” é fazer os policiais parecerem incompetentes em seu trabalho, mas isso beira ao ridículo!
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            Ok, talvez vocês tenham um pouco de razão em julgar que estou levando este filme um pouco a sério demais; afinal, há motivos para muita gente afirmar que “Cobra” é para Sylvester Stallone o mesmo que “Comando Para Matar” é para Arnold Schwarzenegger. Porém só estou levando este filme tão mais a sério do que merece porque, para ser franco, ele mesmo se leva tão mais a sério do que merece! E eis a ironia: Por ao final ser apenas a epítome do filme de ação estúpido dos anos 80, quanto mais ele tenta levar si mesmo a sério, mais ridículo e engraçado acaba ficando! Falem o que quiserem sobre “Comando Para Matar” ser o um dos filmes mais estúpidos de Schwarzenegger, mas ao menos é apaixonadamente estúpido. “Stallone Cobra”, porém, é igualmente estúpido, mas acha que é inteligente. Só que não é possível levar a sério de verdade qualquer discussão política vinda de um filme em que o protagonista dirige um Mercury 1950 de placa AWSOM 50 (o tapa na testa é livre) e troca diálogos tais como:
           
Motoqueiro anarquista: (após invadir um supermercado e ameaçar Cobra com uma bomba) Irei explodir este lugar inteiro!
            Cobra: Vá em frente, não faço compras aqui.

Ou

            Motoqueiro anarquista: Sou um herói do novo mundo!
            Cobra: Você é uma doença, e eu sou a cura.
           
            Está vendo o que quero dizer?! Depois de uma frase de efeito dessas qualquer política torna-se uma piada!
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            E ok, talvez vocês tenham um pouco de razão em julgar que estou sendo um pouco cruel demais com este filme. Afinal, sim, é ruim, é besta e o diabo a quatro, mas a verdade é que... Justamente por isso tudo é tão divertido! Dá pra não rir quando as más intenções dos vilões são estabelecidas pelo ato profano de um maldito motoqueiro estacionar (oh meu deus!) em uma vaga para deficientes?! Ou quando logo em seguida este mesmo motoqueiro começar a atirar por um supermercado em qualquer coisa que apareça na sua frente exceto as pessoas (suponho que ele tenha um grande ódio por vegetais)?! Sem falar que a gratuidade da violência, entre explosões e tiroteios que acontecem puramente por acontecer, é tão hilária quanto a de um filme de Tarantino. Embora, infelizmente, sem o mesmo senso artístico.
Mas não que “Stallone Cobra” não tente: Afinal, como a maioria dos filmes dos anos 80, ele possui esse estranho “senso artístico” que atualmente vemos o quão brega que realmente é, mas justamente por isso não deixa de no fundo nos fascinar. O que é possível sequer falar quando a cena seguinte à narração inicial de Stallone é um motoqueiro correndo pelas ruas sob um filtro vermelho, intercalado por flashes dos membros do culto batendo machados no que parece ser uma fábrica coberta de lençóis rasgados. Dá pra ver que a intenção era que fosse artístico e intimidante, mas trinta anos depois é impossível não comparar essa cena com um videoclipe brega.
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            Falando em videoclipe, não vamos esquecer que, como todo bom blockbuster dos anos 80, “Stallone Cobra” possui uma montagem musical. Aqui, ela ocorre quando Cobra está fazendo suas investigações pelas sarjetas e zonas de Los Angeles ao som de “Angel of the City”, intercalado por...
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            Robôs? Hum... Por que robôs? O que robôs tem a ver com Cobra fazendo investigações? Aliás, o que eles tem a ver com qualquer coisa do filme?! Por acaso há uma cena pós-créditos que perdi em que estes robôs ganham vida e começam a atacar as pessoas? Será que robôs são na verdade um simbolismo para... ALGUÉM ME EXPLICA POR QUE RAIOS HÁ ROBÔS NESTE FILME?!
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            Eh, acho que é a melhor explicação que terei.
            Entendem por que recomendo assistir este filme pela zoeira? “Stallone Cobra” é tão recheado de clichês e estereótipos dos anos 80 que aparecem apenas porque sim, que mesmo que na época tivesse a intenção de ser sério não dá para, agora que isso tudo já passou, não rir dele. É como uma espécie de vinho muito estranho que, embora de modo algum fique melhor com o tempo, ao menos gera um maior fascínio, além de te deixar em um estado de embriaguez que te fará rir à toa de coisas que, pensando de forma racional, nem são tão engraçadas assim.


Avaliação: Vale a zoeira.