Sabem, após ser mandado para o inferno e
sair de lá inexplicavelmente quatro vezes,
estou começando a achar que ou a justiça no submundo consegue ser pior que a
brasileira, ou Freddy Krueger tem um senhor
advogado...
De
uma forma ou de outra, eis “A Hora do Pesadelo: O Mestre dos Sonhos”, e sendo
bem sincero... Não é tão mal quanto
se esperaria da terceira continuação de uma franquia de terror (ou, sendo bem
sincero, de qualquer continuação de
uma franquia de terror). Isso porque se percebe que sua premissa está ao menos tentando manter o espírito quase
simbólico do “A Hora do Pesadelo” original, com os poderes de sonhos aqui sendo
utilizados de uma maneira que, embora continue soando mais como um RPG do que
como um sonho de verdade ou um legítimo filme de terror, ao menos é mais sutil
e misteriosa, imitando o tom quase surrealista do primeiro filme. Ainda por
cima, os efeitos especiais continuam fantásticos, como vinha sendo o padrão da
franquia até então, e ajudam a dar esse tom surreal que “O Mestre dos Sonhos”
parece procurar. Sem falar que a (ocasional, mas já chego nisso) sanguinolência
criativa misturada com o alegre humor mórbido de Freddy Krueger é uma
combinação da qual, pelo menos até agora, não me enjoei, algumas cenas até me
surpreendendo pelo quão macabras que são.
Infelizmente,
nada disso impede “O Mestre dos Sonhos” de ser uma considerável decadência em
relação a “A Hora do Pesadelo”, e inclusive em relação a “Os Guerreiros dos
Sonhos”.

Começando
pelo problema que todo mundo aponta
ao falar deste filme: É aqui que Freddy Krueger oficialmente deixa de ser
assustador e se torna uma piada, com a maioria de suas cenas soando mais
cômicas do que nos filmes anteriores. A imagem acima, por exemplo, é de fato
parte do filme: Yup, Freddy Krueger simplesmente bota seus óculos de sol e
tortura uma de suas vítimas numa praia ensolarada. Em que mundo que isso soa
minimamente assustador?! As frases de efeito deste filme também colaboram para
fazer Freddy parecer menos intimidante e mais... Bem... Mais como um “tio do
pavê”, como em uma cena em que ele aparece para uma de suas vítimas fantasiado
de médico e diz “Bem, o Dr. Seuss é que não sou!”. Falando em fantasias, há
inclusive uma cena em que Robert Englund deixa de lado a máscara de pizza e
aparece em um sonho fantasiado de enfermeira. Desculpe-me, mas a menos que você
tenha uma fobia de drag queens, eu
não consigo imaginar isso assustando alguém.
E
eu fico chateado com “O Mestre dos Sonhos” por isso? É claro que fico. Sim,
admito que a forma como Freddy Krueger parece se divertir imensamente cada vez
que ele tortura e mata alguém é o que o torna tão icônico, e que se for pra lhe
dar uma personalidade, ao menos “Guerreiros dos Sonhos” lhe deu uma que é
memorável. Mas eis a questão: Sua personalidade engraçada naquele filme é
memorável justamente pela forma como, apesar de todos os seus problemas,
“Guerreiros dos Sonhos” soube equilibra-la com a crueldade com a qual Freddy
trata suas vítimas... Equilíbrio que “Mestre dos Sonhos” não realiza tão bem.

Isso
porque, ao contrário das mortes bastante criativas que a franquia vinha
mantendo até então, parece que em “Mestre dos Sonhos” a criatividade se esgotou
um pouco: Temos dois personagens que são mortos simplesmente com uma “luvada de
lâminas” (chato...), uma é queimada viva no que soa muito como uma morte
“emprestada” do primeiro filme... E sem falar que a ideia que “Guerreiros”
(caramba, é impressão minha ou estou ficando nostálgico daquele filme?!)
introduziu de Freddy usar as personalidades e fraquezas de suas vítimas para
tortura-las não é usada de forma tão bem-feita: Duas das mortes inclusive não
tem nada a ver com a personalidade das vítimas. Como se não bastasse, as mortes
são tristemente previsíveis, o público muitas vezes sabendo cinco eras antes
quem irá morrer em seguida.
Ainda
assim, não diria que “Mestre” perde totalmente o tom: Como eu disse no começo,
algumas cenas até me surpreenderam pelo quão macabras que são, como a morte de
Garota-de-Cabelo-Grande-dos-Anos-80 (por favor, não me perguntem o nome dela,
não seria capaz de me lembrar nem com uma arma na cabeça), que, citando “Noivo
Neurótico, Noiva Nervosa”, “é realmente uma experiência kafkiana”; e, claro, a
famosa e perturbadora cena em que o sr. Cara-de-Pizza come ele próprio uma
“pizza de almas” com os rostos de suas vítimas como se fossem azeitonas (motivo
pelo qual, se você tem amor ao seu estômago, não chame uma pizza quando for
assistir este filme com os amigos).

Mas
então temos o segundo grande alvo de críticas em “Mestre dos Sonhos”: O roteiro,
com seus constantes altos e baixos.
O
filme começa razoavelmente promissor, com os três jovens sobreviventes de “Guerreiros”,
os últimos filhos restantes dos pais que queimaram Freddy Krueger vivo,
tentando viver vidas razoavelmente normais. Isso é, até o dito-cujo ser ressuscitado
via... Mijo de cachorro flamejante. Soa como uma piada, mas é basicamente assim
que ele ressuscita neste filme. É sério que alguém foi pago para escrever isso?!
E
então... Freddy mata os três antes da marca dos 40 minutos. E é aí que o
roteiro arrasta o filme de mal a pior.
Afinal,
com a vingança de Freddy terminada antes da metade do filme, como é que este
poderá continuar? Que desculpa ele dará para Freddy Krueger continuar
existindo, se ele só existe nos sonhos de suas vítimas?
Bom,
lembram-se de Kristen, a protagonista de “Guerreiros”, interpretada por Patricia
Arquette? Bem, em “Mestre” não apenas ela passa a ser interpretada por Tuesday
Knight (sim, esse é o nome artístico dela), como também ela se torna
possivelmente o ser mais burro e insensível de toda a série “A Hora do Pesadelo”!!!
Por quê? Porque quando Freddy Krueger a encurrala em seu sonho, ela não apenas
usa seu poder de trazer outras pessoas para seus sonhos (que por algum motivo
ela ainda não aprendeu a controlar) e traz a melhor amiga dela, como lhe
transmite seu poder (porque aparentemente isso
ela sabe controlar!) antes de morrer sem
lhe dar qualquer aviso de que poder é esse! É pedir por um desastre, não?!
Se ela não tivesse feito isso, Freddy simplesmente mataria a amiga, e então desapareceria
pois não tem mais quem matar (pelo menos, essa é a lógica que o filme passa). E
está certo, Kristen lhe passou o poder para protege-la, mas 1) Mandar outras
pessoas para os sonhos ao final não ajudou Kristen em nada; e 2) Transmitir o
poder de mandar outras pessoas para seus sonhos a uma pessoa que não faz a
menor ideia de que poder é esse é exatamente o que Krueger quer, pois ela vai
involuntariamente ficar mandando mais carne fresca pra ele! E adivinhem só, é
exatamente isso que acontece! Pense um pouco mais da próxima vez, Kristen,
antes de sentenciar mais pessoas inocentes à morte!
Mas
enfim, após essa péssima desculpa para não terminar o filme por aí, temos a
nova protagonista do filme, Alice (interpretada por Lisa Wilcox. E sim, o nome
da personagem será usada contra ela em um filme sobre sonhos). E com ela, vem
sua turma de sacos de carne, quero dizer, amigos.
...
Nah, quero dizer sacos de carne mesmo, porque aja personagens sem-sal! Os de “Guerreiros”
podiam não ser muito profundos, mas ao menos eram estereótipos coloridos e
divertidos de se ver! Aqui, temos apenas um bando de moleques que não apenas
são estúpidos ao extremo – conseguindo de alguma forma serem ainda mais
teimosos que qualquer adulto da franquia ao insistirem em acreditar que Krueger
não é real mesmo depois que quatro de
seus amigos morrem de forma misteriosa em uma questão de dois ou três dias! -,
mas também possuem quase nenhuma personalidade além de um ou outro traço que é
usado contra eles por Krueger: Temos a gênia asmática, o cara que gosta de
artes marciais (aparentemente alguém era fã de “Karate Kid” e quis que quis
enfiar uma homenagem no meio do filme), a durona temperamental que tem medo de
baratas, e um cara que eu juro que o único traço de personalidade dele é ser “o
gostosão”.
E
no centro dessa turma, temos Alice, que no meio desses personagens quase sem
personalidade consegue o feito de ter nenhuma
personalidade! Sério, zero! Como se isso não bastasse, ao longo do filme é
estabelecido várias vezes que Alice possui esses momentos em que ela
simplesmente devaneia sobre coisas que ela gostaria de fazer, sendo que “devaneio”,
em inglês, é convenientemente chamado de “daydream”
(ou “sonho diurno”). E o que o filme faz com tais devaneios? Querem mesmo
saber? Vocês não vão acreditar! Mas então lá vai: O que o filme faz com tais
devaneios é... Rufem os tambores... ABSOLUTAMENTE NADA!!!! Freddy Krueger nem uma única vez usa isso contra Alice!
Uau!
Apenas... Uau! Aja oportunidade desperdiçada!
Mas
afinal, há algo de positivo em Alice? Bom... E aí é que as coisas começam a
ficar um pouco estranhas, porque aparentemente a falta de personalidade de
Alice... É de propósito! Isso porque, junto com o poder de trazer outras
pessoas para seus sonhos que ela herdou de Kristen, ela aparentemente ganhou
também um poder dela: Toda vez que algum de seus amigos morrem, ela ganha um
traço da personalidade deles. Assim, quando Kristen morre, ela passa a fumar
como Kristen; quando a gênia morre, Alice se torna inteligente como ela; o cara
das artes maricias morre, e de repente ela aprende karatê mais rápido que Neo
em “Matrix”! E pela união de seus poderes ela é a Capitã Pla... Ah, vocês
entenderam!

E
por mais bizarro que possa soar, essa é de longe a parte mais inteligente do
filme! Sim, Alice ganhar poderes no mundo
real fazendo pessoas morrerem nos sonhos soa pra lá de fantasioso (e um
tanto doentio, parando pra pensar), mas ainda assim está muito mais próximo do
surrealismo sutil de “A Hora do Pesadelo” do que os poderes de sonhos de “Guerreiros”.
Não bastasse, a transformação da
protagonista está recheada de um óbvio, mas ainda assim surpreendentemente
inteligente simbolismo: No começo, o espelho no quarto de Alice está tapado por
fotos que ela tem de sua família e amigos. Cada vez que um deles morre, porém,
ela arranca a foto dele ou dela do espelho, sendo assim aos poucos capaz de ver
seu próprio reflexo. Acho que não preciso dizer o quanto isso é uma metáfora de
como que, ganhando traços da personalidade de seus amigos, ela está aos poucos
ganhando uma identidade própria, não? (e, para mim, isso é mais que prova o
suficiente de que a falta de personalidade de Alice era 100% proposital!)
Além disso, até o
terceiro ato do filme Alice está o tempo todo vestindo uma saia “de menininha”
e uns sapatos que, não fosse o tamanho, poderiam muito bem ser infantis, e em
uma cena uma de suas amigas até comenta maldosamente que “seus hormônios ainda vão
começar a trabalhar um dia”, então a construção de uma identidade própria de
Alice “pode até” ser vista como uma parábola sobre a transição da infância para
a fase adulta. Eu não acredito que estou dizendo isso depois de falar tão mal
deste filme, mas... Parabéns, “Mestre dos Sonhos”! Ao menos alguma inteligência você mostra!
Mas,
infelizmente, isso não é o suficiente para salvar “O Mestre dos Sonhos”. É,
desculpe, mas o bom arco de Alice ainda não perdoa o fato de que todos os
outros personagens novos são extremamente sem-graça; as mortes são pouco
criativas; o enredo faz pouquíssimo sentido, tendo ora reviravoltas
desnecessárias que existem apenas para prolonga-lo (há inclusive uma cena completamente
desnecessária em que Krueger de alguma forma consegue fazer um “looping no
tempo”, e então vemos Alice e “gostosão” fazerem exatamente as mesmas coisas três vezes), ora oportunidades
desperdiçadas como os devaneios de Alice; e, o pior de tudo, simplesmente não é
assustador, e a transformação de Krueger em uma piada é um verdadeiro
desserviço à franquia.
Ainda
assim, entendo quem disser que gosta do filme, pois admito que há inteligência
e algumas boas qualidades nele, mesmo que em meio a um lodo cinematográfico.
Mas não se preocupem: Os filmes da franquia sem nenhuma qualidade que os redima ainda estão por vir...
Avaliação: Não vale a pena.
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