2016
não está sendo um ano fácil...
Apenas
uma semana depois do falecimento de Abbas Kiarostami, é a vez de nos
despedirmos de outro grande cineasta do cenário cult: Héctor Babenco, nascido
na Argentina e naturalizado brasileiro, falecido aos 70 anos. Embora tenha
dirigido apenas 10 filmes, teve ainda assim uma das melhores e mais
bem-recebidas carreiras do cinema nacional, chegando até a ser indicado ao
Oscar de Melhor Diretor. Fica difícil, portanto, escolher um único filme para
criticar como homenagem a ele. Mas, ao final, me voltarei para um de seus
primeiros filmes a chocar espectadores não apenas no Brasil, mas também ao
redor do mundo no início dos anos 80: “Pixote – A Lei do Mais Fraco”.

Um
dos primeiros filmes nacionais a ousarem falar sobre o envolvimento de crianças
e jovens no crime organizado – e isso durante a era das pornochanchadas! -,
“Pixote” serviu de forte inspiração para boa parte dos filmes de crítica social
que o seguiram, como o tão celebrado “Cidade de Deus”. Babenco aqui não teve
nenhum medo ou pudor em mostrar a realidade cruel dessas crianças, além de
fazer duras críticas a órgãos como a Febem e a polícia.
O
filme começa ao estilo de um documentário, com o próprio Héctor Babenco, em
frente a uma favela de São Paulo, dando dados sobre a vida das então 28 milhões
de crianças (quase um quarto da população brasileira da época) que viviam em
situação abaixo das normas exigidas pelos Direitos Internacionais da Criança
das Nações Unidas, 3 milhões das quais não tinham lar ou família. Por estarem
abaixo da maioridade penal, estas crianças acabam sendo atraídas pelos adultos
ao mundo do crime, que sabem que caso elas sejam pegas serão enviadas a um
reformatório, que pode coloca-las em liberdade após alguns meses por simples
falta de vagas. Babenco então nos apresenta ao ator principal do filme,
Fernando Ramos da Silva, que como o diretor conta vive em uma casa na favela
com sua mãe e nove irmãos; e explica que as crianças que atuam no filme
pertencem à mesma classe social de seus personagens (mais ou menos, mas falo
melhor sobre isso daqui a pouco).
O
filme então de fato começa, dividido em duas partes distintas, ambas focadas na
vida de Pixote, o personagem-título interpretado por Fernando. Na primeira
parte, Pixote, um menino de rua de apenas 10 anos, é pego em uma ronda policial
e enviado à Febem. Através dele, vemos a dura vida dos garotos que são mandados
para o reformatório: Onde novatos são estuprados e forçados a negociar sua
segurança em troca de drogas; onde guardas sádicos não veem problema em
espancar os jovens que consideram incômodos, por vezes até a morte; onde a
polícia frequentemente leva alguns dos meninos para receberem “tratamento de
adulto”, eventualmente matando um ou outro; onde a culpa por qualquer morte
logo é jogada nos próprios jovens, em um jogo de corrupção que livra as mãos da
diretoria da Febem de qualquer responsabilidade pelo que lá acontece; onde tudo
é muito bem escondido para que a mídia nada tenha para denunciar; enfim, onde
os únicos refúgios dos jovens estão na maconha e na cola, às quais Pixote logo
é introduzido.
Na
segunda parte, Pixote e outros jovens da Febem conseguem fugir, e ele passa a
viver com três amigos que lá fez: Chico (interpretado por Zenildo Santos), Dito
(interpretado por Gilberto Moura) e a transexual Lilica (interpretada por Jorge
Julião). Os quatro vivem como trombadinhas e, após um tempo, são contratados
para venderem drogas por Cristal (interpretado por Tony Tornado), um antigo
amante de Lilica. Com isso, eles vão para o Rio de Janeiro. Após algumas
negociações mal sucedidas (que levam à morte de um dos integrantes do grupo),
conseguem finalmente arrumar o que parece ser um bom negócio como cafetões da
prostituta Sueli (interpretada por Marília Pera). Mas não demora para mais
tensões surgirem.
A
forma como Hector Babenco inspirou-se diretamente no neo-realismo italiano ao
dirigir e co-escrever (junto com Jorge Durán) “Pixote” já foi tão abordada por
críticos e especialistas em cinema ao longo das décadas que eu fazer esta
comparação não será nem um pouco original. Ainda assim, é uma comparação
necessária para se entender não tanto como
Babenco desenvolveu este filme (algo que também já escreveram páginas e
páginas), mas principalmente o que ele
queria ao fazê-lo desta forma.
Embora
o filme não seja um documentário, e embora a cena inicial dê a falsa ideia de
que será ao estilo de um, “Pixote” é de um realismo que mais de uma vez revira
o estômago de quem o assiste. As cenas de violência, maus-tratos e humilhações
vivenciadas por Pixote e seus companheiros são de um impacto visual que
possivelmente nenhuma produção hollywoodiana jamais teria coragem de alcançar,
não sem dar alguma suavizada, algo que faça aquilo não parecer tão real. Não é
o caso de “Pixote”: Nos piores momentos, não há trilha sonora, não há efeitos
de pós-produção, e a câmera só se afasta uma vez que o público já não estiver
mais suportando o que vê. Uma coisa é certa, “Pixote” não é um filme para os
fracos e sensíveis! E mesmo quando não mostra nada explícito, o filme inteiro
transmite uma constante sensação de angústia, principalmente devido às
diferentes situações desesperadoras em que os personagens se encontram cena
após cena, sem qualquer esperança de melhora. É o apelo emocional (não
necessariamente negativo) que os críticos tanto gostam de chamar de “Pathos”. Mesmo
as cenas mais “felizes” possuem sempre algo de “errado”, algo que não as faz
parecer propriamente um alívio. Uma das cenas mais alegres, em que os jovens se
divertem na praia, não deixa a angústia de lado ao mostrar uma Lilica
cabisbaixa ao saber que em um mês vai fazer 18 anos, e o futuro não reserva
nada de bom para uma, nas suas próprias palavras, “bicha” (tente não sentir o
coração pesado quando ela em seguida canta “Força Estranha” de Caetano Veloso).
Embora, como se percebe ao final do filme, o futuro não reserve nada de bom
para nenhum dos meninos.
Para
reforçar esta ideia neo-realista de retratar “a vida como ela é”, sem filtros
que a suavizem, há a famosa escolha de elenco de Babenco. Embora a maioria dos
personagens adultos sejam interpretados por atores profissionais, os jovens são
todos interpretados por crianças e adolescentes que Babenco basicamente encontrou
por aí. E embora nem todos fossem, como o diretor diz na cena inicial,
“crianças que pertencem a esta origem social” (Jorge Julião, por exemplo, era
estudante universitário e já havia atuado em peças de teatro), o trabalho que
ele faz com estes atores iniciantes é impecável, todos eles mostrando-se
perfeitamente capazes de transmitir emoções e não se deixarem desaparecer
diante dos adultos mais experientes, entre os quais Marília Pera se destaca e
brilha como a prostituta depressiva cuja vida a deixou à beira da loucura. Ao
mesmo, tempo, porém, por não serem rostos conhecidos, os jovens não tentam se
destacar individualmente, agindo e falando como jovens pobres e anônimos
agiriam e falariam.
Mas
a verdadeira revelação fica para o principal Fernando Ramos da Silva. Mesmo
tendo apenas 12 anos, sem nenhuma experiência como ator e semianalfabeto, ele
não mostra grandes problemas ao representar um simples menino cuja inocência
infantil é forçadamente endurecida como pedra pela vida. Pixote mais de uma vez
parece não ter muita noção em se tratando de sexo ou violência (conte quantas
vezes alguém diz “ninguém te ensinou...?”), porém é obrigado a conviver com
ambos o tempo todo, tornando-o um estranho “menino-homem” que chega a ser
perturbador, especialmente quando Sueli entra em cena e Pixote se mostra
confuso entre vê-la como uma prostituta e possível amante ou como uma figura
materna, resultando no final do filme em uma cena à qual muitos provavelmente
não saberão como sequer reagir. Ainda assim, sua presença é tão realista que
até hoje é difícil separar o personagem Pixote do trágico destino que Fernando teve
na vida real (sem se dar bem como ator, envolveu-se com a criminalidade, e
morreu aos 19 anos durante um tiroteio).
Não
é apenas Pixote, porém, que se vê confuso entre o espírito de criança e a vida
de adulto. Esta é uma confusão que é notada em quase todos os personagens,
capazes de brincar em uma cena e logo em seguida falarem de sexo como se ambos
pertencessem ao mesmo mundo. Em uma cena emblemática, os garotos da Febem
brincam de tortura e assalto. A câmera move-se ao longo da cena como se tudo
fosse de verdade, a ponto de, se não fosse pelo fato de as armas serem meros
pedaços de madeira, seria possível se deixar enganar que é tudo verdade. E em
um momento Dito, o mais velho da brincadeira, leva-a a sério demais quando
Pixote diz seu nome durante o “assalto”. O único motivo por eles estarem
brincando disso é porque é a única coisa que eles conhecem, e Babenco em certo
momento do filme chega a mostrar o quanto que a brincadeira possui um toque de
realidade.
Ao
mesmo tempo em que mostra a confusão destes jovens entre a vida de criança e a
de adulto, “Pixote” também aproveita seu tempo para mostrar os laços entre os
personagens, que podem ao mesmo tempo ser extremamente fortes e extremamente
efêmeros. Isso é mais explorado em Lilica, capaz de chorar desesperada e causar
uma revolta por seu amante morto, para assim que foge da Febem ter um caso
apaixonado com Dito, e ao mesmo tempo que ama o jovem reviver sua relação com
Cristal. Apesar de o tempo todo trocar de amante, porém, o filme mostra que
todos eles são importantes para Lilica, que sente ciúmes de Dito quando este
fica mais próximo de Sueli. Essa relação complicada se estende, de certa forma,
para todos os personagens, que formam laços entre si sem que o público entenda
muito bem o porque, mas enquanto estes laços duram eles são mais fortes que os
de família.

Tai
laços entre os personagens mostram também um lado triste da vida dos
personagens de “Pixote”: Suas relações são tão efêmeras e fortes justamente
porque tudo pode acabar a qualquer momento. A ameaça de alguém ser morto ou
preso está sempre presente, e isso se revela bastante na estrutura narrativa do
filme, que ao invés de tentar contar uma única história com começo, meio e fim,
foca-se principalmente em episódios da vida de Pixote que vão se sucedendo uns
aos outros, dando a impressão de que o filme pode acabar a qualquer momento e,
ao mesmo tempo, que pode se estender pra sempre. A própria Sueli, uma
personagem extremamente importante, só aparece na última meia hora. E mais de
uma vez personagens simplesmente desaparecem para jamais serem vistos
novamente. O que pode parecer um ponto negativo, porém, não é feito sem um
propósito.
“Pixote
– A Lei do Mais Fraco” foi definitivamente um filme à frente de seu tempo,
porém Hector Babenco soube como transformar uma ideia ousada em um filme
bem-feito, capaz de influencia até hoje a forma como cineastas brasileiros
fazem filmes, ao mesmo tempo que continua nos chocando. Embora, quando se para
pra pensar, o próprio fato de o cartaz do filme mostrar o personagem-título
completamente nu já é um choque inicial que deixa o espectador preparado para o
que está por vir.
Avaliação: Vale muito a pena.
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