sábado, 16 de julho de 2016

Pixote - A Lei do Mais Fraco

            2016 não está sendo um ano fácil...
            Apenas uma semana depois do falecimento de Abbas Kiarostami, é a vez de nos despedirmos de outro grande cineasta do cenário cult: Héctor Babenco, nascido na Argentina e naturalizado brasileiro, falecido aos 70 anos. Embora tenha dirigido apenas 10 filmes, teve ainda assim uma das melhores e mais bem-recebidas carreiras do cinema nacional, chegando até a ser indicado ao Oscar de Melhor Diretor. Fica difícil, portanto, escolher um único filme para criticar como homenagem a ele. Mas, ao final, me voltarei para um de seus primeiros filmes a chocar espectadores não apenas no Brasil, mas também ao redor do mundo no início dos anos 80: “Pixote – A Lei do Mais Fraco”.

            Um dos primeiros filmes nacionais a ousarem falar sobre o envolvimento de crianças e jovens no crime organizado – e isso durante a era das pornochanchadas! -, “Pixote” serviu de forte inspiração para boa parte dos filmes de crítica social que o seguiram, como o tão celebrado “Cidade de Deus”. Babenco aqui não teve nenhum medo ou pudor em mostrar a realidade cruel dessas crianças, além de fazer duras críticas a órgãos como a Febem e a polícia.
            O filme começa ao estilo de um documentário, com o próprio Héctor Babenco, em frente a uma favela de São Paulo, dando dados sobre a vida das então 28 milhões de crianças (quase um quarto da população brasileira da época) que viviam em situação abaixo das normas exigidas pelos Direitos Internacionais da Criança das Nações Unidas, 3 milhões das quais não tinham lar ou família. Por estarem abaixo da maioridade penal, estas crianças acabam sendo atraídas pelos adultos ao mundo do crime, que sabem que caso elas sejam pegas serão enviadas a um reformatório, que pode coloca-las em liberdade após alguns meses por simples falta de vagas. Babenco então nos apresenta ao ator principal do filme, Fernando Ramos da Silva, que como o diretor conta vive em uma casa na favela com sua mãe e nove irmãos; e explica que as crianças que atuam no filme pertencem à mesma classe social de seus personagens (mais ou menos, mas falo melhor sobre isso daqui a pouco).

            O filme então de fato começa, dividido em duas partes distintas, ambas focadas na vida de Pixote, o personagem-título interpretado por Fernando. Na primeira parte, Pixote, um menino de rua de apenas 10 anos, é pego em uma ronda policial e enviado à Febem. Através dele, vemos a dura vida dos garotos que são mandados para o reformatório: Onde novatos são estuprados e forçados a negociar sua segurança em troca de drogas; onde guardas sádicos não veem problema em espancar os jovens que consideram incômodos, por vezes até a morte; onde a polícia frequentemente leva alguns dos meninos para receberem “tratamento de adulto”, eventualmente matando um ou outro; onde a culpa por qualquer morte logo é jogada nos próprios jovens, em um jogo de corrupção que livra as mãos da diretoria da Febem de qualquer responsabilidade pelo que lá acontece; onde tudo é muito bem escondido para que a mídia nada tenha para denunciar; enfim, onde os únicos refúgios dos jovens estão na maconha e na cola, às quais Pixote logo é introduzido.
            Na segunda parte, Pixote e outros jovens da Febem conseguem fugir, e ele passa a viver com três amigos que lá fez: Chico (interpretado por Zenildo Santos), Dito (interpretado por Gilberto Moura) e a transexual Lilica (interpretada por Jorge Julião). Os quatro vivem como trombadinhas e, após um tempo, são contratados para venderem drogas por Cristal (interpretado por Tony Tornado), um antigo amante de Lilica. Com isso, eles vão para o Rio de Janeiro. Após algumas negociações mal sucedidas (que levam à morte de um dos integrantes do grupo), conseguem finalmente arrumar o que parece ser um bom negócio como cafetões da prostituta Sueli (interpretada por Marília Pera). Mas não demora para mais tensões surgirem.

            A forma como Hector Babenco inspirou-se diretamente no neo-realismo italiano ao dirigir e co-escrever (junto com Jorge Durán) “Pixote” já foi tão abordada por críticos e especialistas em cinema ao longo das décadas que eu fazer esta comparação não será nem um pouco original. Ainda assim, é uma comparação necessária para se entender não tanto como Babenco desenvolveu este filme (algo que também já escreveram páginas e páginas), mas principalmente o que ele queria ao fazê-lo desta forma.
            Embora o filme não seja um documentário, e embora a cena inicial dê a falsa ideia de que será ao estilo de um, “Pixote” é de um realismo que mais de uma vez revira o estômago de quem o assiste. As cenas de violência, maus-tratos e humilhações vivenciadas por Pixote e seus companheiros são de um impacto visual que possivelmente nenhuma produção hollywoodiana jamais teria coragem de alcançar, não sem dar alguma suavizada, algo que faça aquilo não parecer tão real. Não é o caso de “Pixote”: Nos piores momentos, não há trilha sonora, não há efeitos de pós-produção, e a câmera só se afasta uma vez que o público já não estiver mais suportando o que vê. Uma coisa é certa, “Pixote” não é um filme para os fracos e sensíveis! E mesmo quando não mostra nada explícito, o filme inteiro transmite uma constante sensação de angústia, principalmente devido às diferentes situações desesperadoras em que os personagens se encontram cena após cena, sem qualquer esperança de melhora. É o apelo emocional (não necessariamente negativo) que os críticos tanto gostam de chamar de “Pathos”. Mesmo as cenas mais “felizes” possuem sempre algo de “errado”, algo que não as faz parecer propriamente um alívio. Uma das cenas mais alegres, em que os jovens se divertem na praia, não deixa a angústia de lado ao mostrar uma Lilica cabisbaixa ao saber que em um mês vai fazer 18 anos, e o futuro não reserva nada de bom para uma, nas suas próprias palavras, “bicha” (tente não sentir o coração pesado quando ela em seguida canta “Força Estranha” de Caetano Veloso). Embora, como se percebe ao final do filme, o futuro não reserve nada de bom para nenhum dos meninos.

            Para reforçar esta ideia neo-realista de retratar “a vida como ela é”, sem filtros que a suavizem, há a famosa escolha de elenco de Babenco. Embora a maioria dos personagens adultos sejam interpretados por atores profissionais, os jovens são todos interpretados por crianças e adolescentes que Babenco basicamente encontrou por aí. E embora nem todos fossem, como o diretor diz na cena inicial, “crianças que pertencem a esta origem social” (Jorge Julião, por exemplo, era estudante universitário e já havia atuado em peças de teatro), o trabalho que ele faz com estes atores iniciantes é impecável, todos eles mostrando-se perfeitamente capazes de transmitir emoções e não se deixarem desaparecer diante dos adultos mais experientes, entre os quais Marília Pera se destaca e brilha como a prostituta depressiva cuja vida a deixou à beira da loucura. Ao mesmo, tempo, porém, por não serem rostos conhecidos, os jovens não tentam se destacar individualmente, agindo e falando como jovens pobres e anônimos agiriam e falariam.
            Mas a verdadeira revelação fica para o principal Fernando Ramos da Silva. Mesmo tendo apenas 12 anos, sem nenhuma experiência como ator e semianalfabeto, ele não mostra grandes problemas ao representar um simples menino cuja inocência infantil é forçadamente endurecida como pedra pela vida. Pixote mais de uma vez parece não ter muita noção em se tratando de sexo ou violência (conte quantas vezes alguém diz “ninguém te ensinou...?”), porém é obrigado a conviver com ambos o tempo todo, tornando-o um estranho “menino-homem” que chega a ser perturbador, especialmente quando Sueli entra em cena e Pixote se mostra confuso entre vê-la como uma prostituta e possível amante ou como uma figura materna, resultando no final do filme em uma cena à qual muitos provavelmente não saberão como sequer reagir. Ainda assim, sua presença é tão realista que até hoje é difícil separar o personagem Pixote do trágico destino que Fernando teve na vida real (sem se dar bem como ator, envolveu-se com a criminalidade, e morreu aos 19 anos durante um tiroteio).

            Não é apenas Pixote, porém, que se vê confuso entre o espírito de criança e a vida de adulto. Esta é uma confusão que é notada em quase todos os personagens, capazes de brincar em uma cena e logo em seguida falarem de sexo como se ambos pertencessem ao mesmo mundo. Em uma cena emblemática, os garotos da Febem brincam de tortura e assalto. A câmera move-se ao longo da cena como se tudo fosse de verdade, a ponto de, se não fosse pelo fato de as armas serem meros pedaços de madeira, seria possível se deixar enganar que é tudo verdade. E em um momento Dito, o mais velho da brincadeira, leva-a a sério demais quando Pixote diz seu nome durante o “assalto”. O único motivo por eles estarem brincando disso é porque é a única coisa que eles conhecem, e Babenco em certo momento do filme chega a mostrar o quanto que a brincadeira possui um toque de realidade.
            Ao mesmo tempo em que mostra a confusão destes jovens entre a vida de criança e a de adulto, “Pixote” também aproveita seu tempo para mostrar os laços entre os personagens, que podem ao mesmo tempo ser extremamente fortes e extremamente efêmeros. Isso é mais explorado em Lilica, capaz de chorar desesperada e causar uma revolta por seu amante morto, para assim que foge da Febem ter um caso apaixonado com Dito, e ao mesmo tempo que ama o jovem reviver sua relação com Cristal. Apesar de o tempo todo trocar de amante, porém, o filme mostra que todos eles são importantes para Lilica, que sente ciúmes de Dito quando este fica mais próximo de Sueli. Essa relação complicada se estende, de certa forma, para todos os personagens, que formam laços entre si sem que o público entenda muito bem o porque, mas enquanto estes laços duram eles são mais fortes que os de família.

            Tai laços entre os personagens mostram também um lado triste da vida dos personagens de “Pixote”: Suas relações são tão efêmeras e fortes justamente porque tudo pode acabar a qualquer momento. A ameaça de alguém ser morto ou preso está sempre presente, e isso se revela bastante na estrutura narrativa do filme, que ao invés de tentar contar uma única história com começo, meio e fim, foca-se principalmente em episódios da vida de Pixote que vão se sucedendo uns aos outros, dando a impressão de que o filme pode acabar a qualquer momento e, ao mesmo tempo, que pode se estender pra sempre. A própria Sueli, uma personagem extremamente importante, só aparece na última meia hora. E mais de uma vez personagens simplesmente desaparecem para jamais serem vistos novamente. O que pode parecer um ponto negativo, porém, não é feito sem um propósito.
            “Pixote – A Lei do Mais Fraco” foi definitivamente um filme à frente de seu tempo, porém Hector Babenco soube como transformar uma ideia ousada em um filme bem-feito, capaz de influencia até hoje a forma como cineastas brasileiros fazem filmes, ao mesmo tempo que continua nos chocando. Embora, quando se para pra pensar, o próprio fato de o cartaz do filme mostrar o personagem-título completamente nu já é um choque inicial que deixa o espectador preparado para o que está por vir.


Avaliação: Vale muito a pena.

Nenhum comentário:

Postar um comentário