terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Labirinto - A Magia do Tempo

            Ontem, a internet praticamente explodiu com a notícia da morte do cantor David Bowie, aos 69 anos. Uma das figuras mais icônicas da música das últimas décadas, sua carreira foi marcada por constantes reinvenções em seu estilo e sua apresentação visual, porém sempre com uma personalidade inigualável.
            Ele também é conhecido pela sua esporádica, porém marcante carreira no cinema. E, tendo decidido dedicar esse blog aos filmes, resolvi homenageá-lo com uma crítica de seu filme mais famoso, “Labirinto – A Magia do Tempo”, de 1986.

            Infelizmente, essa crítica terá que ser baseada apenas em primeiras impressões, considerando que nunca tinha assistido esse filme antes de decidir critica-lo. O que é até estranho, considerando a quantidade de gente que conheço para quem “Labirinto” foi uma parte importante de suas infâncias. Mas, antes assisti-lo tarde do que nunca, não?

            Antes mesmo do filme começar de fato, durante os créditos iniciais, eu já sabia que essa seria uma experiência surreal: Além de ser um filme de fantasia dos anos 80 (o que, convenhamos, já adiciona um nível de estranheza), ele é dirigido por Jim Henson (o mesmo criador dos Muppets), inspirado nos livros de Maurice Sendak (autor de “Onde Vivem os Monstros”) e seu roteiro foi escrito por Terry Jones (um dos membros do Monty Python). Além de, é claro, ter David Bowie como a cereja no topo desse bolo, mas falaremos dele mais tarde.
            A heroína do filme é Sarah, uma menina de 15 anos interpretada por Jennifer Connelly em um de seus primeiros papeis principais no cinema. E... É, dá pra ver que ela ainda não estava totalmente acostumada com isso. Não que a atuação dela seja ruim RUIM, é só que ela ainda tinha muito a melhorar.

                Acreditem ou não, a ideia original era contratar Helena Bonham Carter para o papel. Sim, A Helena Bonham Carter. Imagino que o filme explodiria assim que ela e David Bowie aparecessem juntos.
            De qualquer forma, logo nos primeiros minutos do filme vemos que Sarah gosta de andar sozinha no parque fantasiada de princesa ensaiando falas de um livro chamado, adivinhem só, “Labirinto”. Ok, um tanto não convencional, mas nada que os pais dela devam se preocupar...


            Ok, os pais dela já deviam ter começado a se preocupar a um bom tempo. Pelo menos assim que ela colocou uma estátua roxa do David Bowie ao lado do espelho e pendurou uma gravura de Escher ao lado de seus bichinhos de pelúcia.
            De qualquer forma, Sarah é aquela típica adolescente que só quer saber de viver em seu mundinho de sonhos e contos de fadas e não suporta assumir qualquer tipo de responsabilidade, especialmente quando ela envolve cuidar de seu irmão bebê, Toby, quando seu pai e sua madrasta saem juntos nos fins de semana. Nessa noite, porém, Sarah está especialmente irritada, pois não apenas Toby pegou um de seus ursinhos de pelúcia como também agora não para de chorar. Para acalmar a si mesma, quero dizer, ao bebê, contando a história do livro que estava recitando, sobre uma menina que é obrigada a cuidar de um bebê como uma escrava até que recita uma frase mágica que invoca o rei dos goblins, que leva o bebê consigo para transforma-lo em um goblin.
            E, adivinhem só, assim que a própria Sarah recita a frase mágica, do nada Toby desaparece, tendo sido sequestrado por Jareth, rei dos goblins, interpretado por David Bowie.

                E oh, que visão gloriosa ele é nesse filme! Não basta ele ser uma figura folclórica com um cabelo mullet de cantor dos anos 80; não basta toda fala dele soar como algo malicioso; não basta ele vestir uma calça collant de bailarino que deixa sua genitália desconfortavelmente à mostra em um filme infantil; é preciso que Bowie devore com sua presença tudo ao seu redor, em uma das atuações mais hilariamente perturbadoras de todos os tempos. Quando ele aparece em cena, nada mais importa: Você só vê ele. Pode muito bem passar um elefante cor-de-rosa no fundo do cenário que você não vai perceber (o que, considerando o nível de detalhes surreais do filme, pode muito bem ter passado em alguma cena).
Não há dúvida de que ele foi a escolha certa para esse papel. E olha que nem foi a primeira: Entre os cantores que os criadores do filme estavam pensando em contratar para o papel de Jareth, estavam Michael Jackson, Prince e até mesmo Mick Jagger antes de eles se decidirem por Bowie. E sendo sincero, eu não vejo esse filme funcionando tão bem com nenhum desses outros: além de se dar bem com um personagem caricato e fantasioso como Jareth, Bowie possui (e, a bem da verdade, sempre possuiu) essa sensualidade muito particular dele, que é ao mesmo tempo hipnotizante, porém também um tanto desconfortável. Ele emana poder e certa crueldade friamente controlada. Quando ele fala com Sarah, a impressão que dá é que ele poderia a qualquer momento partir pra cima dela e molestá-la, e só não o faz porque não quer.

            Mas voltando à história, Sarah tenta convencer Jareth de que tudo não passou de um mal entendido e lhe implora para devolver seu irmão. O rei dos goblins, porém, não está tão disposto a devolver o bebê, e assim lança um desafio a Sarah: Ele só lhe devolverá Toby se ela for busca-lo em seu castelo, no centro de um gigantesco labirinto. Para dificultar sua vida, Jareth lhe impõe um limite de 13 horas para ela completar o desafio.

            Como se não bastasse, o labirinto não é qualquer labirinto: ele é cheio de desafios surreais, que testam além do limite a lógica e a perspectiva de Sarah, sempre enfatizando uma variedade de sofrimentos se ela não acertá-los, como ficar presa em um calabouço aparentemente sem saída, voltar ao início do labirinto ou pura e simplesmente a morte súbita. Mais ou menos como “Alice no País das Maravilhas”, apenas... Mais perigoso.

            Para a sorte de Sarah, ao longo de sua jornada pelo labirinto ela faz amizade com um grupo um tanto colorido de companheiros, que por vezes a ajudam (embora por vezes também não): Hoggle, um anão covarde que teme Jareth acima de tudo (e este aproveita esse medo para forçar o coitado a atrapalhar a jornada de Sarah); Ludo, um monstro gigante, porém inofensivo, que é capaz de falar com pedras e invoca-las quando necessário (claro, por que não?); e Sir Didimus, um cavaleiro-raposa que cavalga um cachorro e dado a Dom Quixote, hilariamente histérico quanto à sua coragem.

            Pronto, esse é o enredo do filme: Uma simples e direta “jornada do herói”, com uma personagem que é chamada para uma aventura em um ambiente que lhe é desconhecido, aceita o desafio e a partir daí vai sendo iniciada nos modos desse novo ambiente e evoluindo à medida que aprende, tudo concluindo em um confronto final com o vilão que foi a causa do chamado em primeiro lugar. Labirinto, Senhor dos Anéis, Star Wars, Harry Potter, todas essas aventuras épicas derivam, cada uma à sua maneira, dessa premissa. O que as diferencia entre si, porém, é o que elas fazem com essa premissa, os diferentes ambientes e desafios pelos quais seus heróis passam, seus diferentes aprendizados.
            Pois bem. O que é então que “Labirinto” faz com sua premissa?
            Quanto ao chamado em si, nada muito original. O conceito de goblins que roubam crianças e seus familiares que precisam resgata-las está bastante enraizado no folclore europeu. O aprendizado em si também não é muito original: Procurar novas perspectivas quando um problema parece sem solução, não ter medo de algo sem saber antes o que é, valorizar suas amizades, aprender a encarar a realidade, porém sem abandonar de todo seus sonhos e fantasias... Todas essas coisas vários heróis e heroínas antes de Sarah já aprenderam em outras histórias.
            Quanto à ambientação de “Labirinto”... Aí sim.

            Os desafios pelos quais Sarah passa, os cenários que ela percorre dentro do labirinto, as criaturas que ela encontra... Tudo no filme é encantadoramente surreal e elaborado. É de impressionar que um filme dessa escala e desse nível de imaginação visual pudesse ser feito em 1986, quando a tecnologia de imagens computadorizadas tinha acabado de surgir e estava apenas engatinhando. De fato, os únicos momentos em que imagens computadorizadas são usadas no filme são para animar uma coruja nos créditos iniciais e para inserir cenários em cenas filmadas em frente a uma tela. Todo o resto é feito com bonecos, acessórios de cena, pessoas e objetos pendurados por fios e outros efeitos especiais práticos.

            Não é, porém, um surrealismo sem sentido, uma mera brisa de ácido que de alguma forma conseguiu financiamento: Uma boa parte dos elementos surreais e fantásticos do filme possuem sua dose de simbolismo e significado. Um grupo de monstros coloridos que literalmente perdem as cabeças quando dançam e cantam; um crista/bolha em que Sarah finalmente experimenta os bailes de príncipes e princesas com os quais sonhava, até perceber que algo está errado e querer sair dessa bolha; uma velha que carrega um monte de tralha nas costas que, quando Sarah perde a memória de sua busca, preenche o vazio nela com brinquedos. É o tipo de simbolismo sutil que uma criança talvez não perceba, mas quando ela crescer e rever o filme vai sem dúvida se surpreender.

            Ao mesmo tempo, porém, o filme não deixa que seus simbolismos se tornem sérios demais e tirem o principal propósito do filme, que é ser um filme que apele para as crianças. Assim, embora por vezes ele seja bastante sombrio, ele não deixa de ter sua alta dose de momentos leves e engraçados. E analisando o humor do filme, logo percebe-se a mão de Jim Henson por trás dele, pois é o típico humor que se encontraria em um episódios dos Muppets: Não é tanto a situação que é engraçada (por mais que muitas vezes sejam), mas principalmente os diálogos e a forma como eles são ditos que fazem o público rir. E, aliás, até mesmo os momentos cômicos de “Labirinto” têm sua dose de metáforas e alegorias. Uma cena que gostei muito ao assistir o filme é uma que envolve estátuas de cabeças falantes que Hoggle chama de “alarmes falsos”, cuja função é repetir frases em tom grave que façam a pessoa que percorre o labirinto desistir de seguir o caminho certo. A alegoria é bem explícita, mas eu pessoalmente ri alto com a reação dos alarmes falsos quando Hoggard e Sarah não reagem a seus avisos da maneira que deveriam.

                E, claro, temos Jareth de novo. Oh, David Bowie estava se divertindo tanto ao interpretá-lo! Ele pode nem falar nada, apenas quando ele aparece em cena você já solta um risinho... Isso é, quando ele não te deixa propositalmente desconfortável em seu tom malicioso e calça collant, mas quando ele quer divertir, ele diverte e como! E de novo, o principal motivo é sua presença, com cabelo mullet, calça que necessita de uma barra de censurado por cima e tudo. E quando ele canta... Porque sim, caso você não tenha assistido o filme ainda, Bowie canta nele. E é glorioso!

            É uma pena que, apesar do enorme culto que se formou em cima de “Labirinto” ao longo dos anos, nunca chegaram a filmar uma continuação com David Bowie em vida. Porque mesmo tendo visto o filme apenas recentemente, dá pra ver que Bowie e Jareth é uma combinação entre ator e personagem tão perfeita e insubstituível que tenho certeza que, mesmo na casa dos sessenta anos, nenhum ator se daria melhor com esse personagem do que ele. O papel de Jareth pertencia apenas a ele. Descanse em paz, Bowie. Seu cabelo mullet e calça de bailarino não serão esquecidos.


Avaliação: Vale a pena

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Operação Big Hero

            É curioso como, logo depois de fazer minha crítica de “A Teoria de Tudo”, resolvi escrever sobre outro filme que, pensando agora, dividiu a opinião de muita gente: “Operação Big Hero”.

            Chego até a pensar que irei perder algumas amizades depois dessa: Conheço gente que ama esse filme, conheço gente que o acha fraco, conheço gente que até o acha bom, mas afirma que não merecia ganhar o Oscar de Melhor Animação ano passado, que devia ter ido para “Uma Aventura LEGO” (que por motivos obscuros nem chegou a entrar na lista final da competição) ou “Como Treinar Seu Dragão 2”... Bom, uma coisa irei admitir: Não assisti “Uma Aventura LEGO” e “Como Treinar Seu Dragão 2” (que vergonha!)... Ainda. Então não posso compara-lo com esses filmes, e talvez eles até sejam melhores, não sei... Mas a bem da verdade... Na minha opinião... “Operação Big Hero” talvez seja uma das melhores animações da Disney que já assisti.


DEIXEM EU ME EXPLICAR!
            Sim, a história é um tanto previsível; sim, há elementos e personagens que podiam ter sido melhor explorados; e sim, eu assisti mais do que um filme da Disney.
            Porém!
            Acredito que os temas nos quais o filme de fato se aprofunda, e a forma como se aprofunda, além de muitos de seus aspectos técnicos e criativos, superam e em muito seus defeitos. Comecemos pelo começo.

            A história de “Operação Big Hero” se passa na cidade fictícia de San Fransokyo. Como o nome sugere, é basicamente uma versão de San Francisco se ela fosse construída por japoneses. E a bem da verdade, essa é uma ambientação bastante interessante. Você tem aquelas casinhas tipicamente americanas que se vê nos filmes, porém quase sempre com os telhados curvos orientais, além de outros tipos de decoração (a casa do personagem principal tem um gato da sorte gigante em cima da porta de entrada). Além disso, enfatizando o aspecto futurista da cidade, tudo em San Fransokyo parece cheio: Quase não há espaços vazios, tudo sendo preenchido por casas ou prédios. Nem o céu está a salvo, lotado de balões dirigíveis em forma de carpas (lembrando os koinoboris japoneses). E claro, tudo isso culmina no centro da cidade, que parece saído de um filme como “Blade Runner”, o tipo de pólo tecnológico que só pode ser descrito como “Tóquio daqui a algumas décadas”.
            Sem falar que a animação é fantástica. Além de sua escala gigantesca (pelo que li na internet, o filme conta com 700 personagens, mais de 80.000 edifícios, 100.000 veículos e 250.000 árvores!), tudo é feito com um nível de detalhismo jamais visto antes em uma produção da Disney. É possível distinguir todas as janelas de todos os edifícios. Os personagens possuem fios de cabelos iguais aos de uma pessoa real. Até mesmo em uma bola é possível ver os pontinhos como os de uma laranja, dando uma ideia de sua textura áspera. Dá quase vontade de estender a mão para a tela e tocar tudo.

Mas voltando à história.
O herói do filme é um garoto de 14 anos chamado Hiro. Se esse nome não foi escolhido com a intenção de ser um trocadilho em inglês com o papel dele no enredo, então foi uma escolha inconsciente, porque não tem como isso ser uma coincidência.
Hiro é um gênio da ciência, que vive com o irmão mais velho, Tadashi, e a tia desde que seus pais morreram quando ele tinha três anos (Disney, a maior assassina de pais do mundo, ataca novamente!). Tendo já se graduado no ensino médio graças à sua genialidade, Hiro gasta seu tempo apostando dinheiro em lutas de robôs ilegais. Tadashi, em um plano para convencer seu irmão a ir atrás de uma vida melhor, leva-o para a universidade em que estuda. Lá, Hiro, embora a princípio relutante, logo fica encantado com as descobertas e invenções científicas feitas pelos colegas de Tadashi.

            Tadashi ainda aproveita e mostra a Hiro seu próprio projeto pessoal, o robô-enfermeiro inflável Baymax.

            Ok, por onde começo a falar?
            Primeiro, falemos sobre a ciência. Embora boa parte da tecnologia apresentada no filme não exista no mundo real, é o tipo de coisa que poderia muito bem existir um dia. Ela não é real, mas soa real. Aliás, a tecnologia para revestir um robô em vinil inflável por trás de Baymax é um dos elementos do filme que já existe! E é surpreendente como “Operação Big Hero” faz todos os seus termos científicos e sua computação parecerem interessantes. Chega a dar certa vontade de pesquisar na internet o quanto disso tudo é possível no mundo real. Portanto pelo menos esse crédito eu posso dar ao filme: Ele tenta (e, quem sabe, consegue) fazer as crianças se interessarem por ciência e tecnologia sem soar chato e educacional. Não se prolonga em longas explicações de como funciona: Apenas diz o que é, mostra funcionando e abre o espaço necessário para a curiosidade das crianças fazê-las pesquisar e se aprofundar por conta própria.
            E então temos Baymax. Oh, Baymax, Baymax... Se o Gênio é o ponto alto de “Aladin”, Baymax é definitivamente o ponto alto de “Operação Big Hero”. Chega a ser curioso: Sua aparência não tem nada marcante além do fato de ele se parecer com um marshmalow gigante, ele fala o tempo todo no mesmo tom de voz robótico, uns três quartos de suas falas são sobre saúde e/ou segurança... E mesmo assim seu carisma é inigualável. O único motivo que eu consigo imaginar para isso é sua inocência: Ele não entende expressões e gírias, cumpre quaisquer ordens que lhe dão no sentido mais literal possível, e tudo em sua aparência, seu vocabulário, suas atitudes e até sua maneira de andar expressa o quão absolutamente inofensivo ele é. Você olha para ele e, por mais que em certos momentos ele pareça atrapalhado, dá pra ver que ele não seria capaz de fazer mal algum. Aliás, ele é justamente programado pra não fazer mal algum e ajudar qualquer um que esteja doente ou com dor, seja física ou até psicológica. É como aquele seu cachorro de estimação que só faz besteira e parece um completo idiota, mas quando vê que você está triste logo enfia a cara por baixo do seu braço e se oferece para te consolar.

            Voltando à história, Hiro decide participar do concurso para entrar na universidade (que, sendo bem sincero, dá de dez a zero em qualquer vestibular). Ele passa ao inventar microrrobôs capazes de se unirem e formarem qualquer estrutura que a pessoa que os controle consiga imaginar. Na mesma noite em que Hiro é aprovado, porém, um incêndio ocorre no prédio onde o concurso estava ocorrendo. Tadashi entra no prédio para salvar o chefe do programa de robótica da universidade, mas nesse momento o local explode, matando Tadashi e aparentemente destruindo os microrrobôs de Hiro.

            Um tempo passa e Hiro, após a morte de seu irmão, desistiu da universidade, afastou-se de seus conhecidos e isolou-se do mundo dentro de seu quarto. Quando, porém, ele sem querer machuca o pé, isso ativa Baymax (que é programado para agir toda vez que ouve alguém falando “ai”), que estava esse tempo todo ao lado da cama de Tadashi. Hiro tenta então desativa-lo, mas nisso descobre um único microrrobô que sobreviveu ao incêndio no bolso do agasalho de Tadashi, e parece estar sendo atraído em uma direção específica. Hiro a princípio ignora, achando que o microrrobô está quebrado, porém segue Baymax quando este começa a andar na direção apontada pelo microrrobô. É assim que ambos descobrem uma fábrica secreta de microrrobôs, controlada por uma figura misteriosa vestindo uma máscara de kabuki sobre o rosto, que tenta mata-los quando os vê.

            Mesmo quase morrendo em seu primeiro encontro com o mascarado, Hiro sente a necessidade de descobrir quem ele é e o que ele está fazendo com seus microrrobôs. O único jeito de confrontá-lo, porém, seria com algo que o ajude a lutar contra o vilão. Assim, Hiro decide reprogramar Baymax para ser capaz de lutar caratê e ainda o equipa com uma armadura. Como isso se revela não sendo o bastante, Hiro consegue a ajuda dos ex-colegas de Tadashi, e juntos eles formam um grupo de super-heróis.

            Pronto, essa é a sinopse do filme. Agora por que eu o considero uma das melhores animações da Disney que já vi?
            Não é por causa da história. Não que ela seja ruim. É boa, mas quando você assistir o filme vai ver que ela é um tanto simplesinha. E, embora a animação, a ambientação e o interesse que o filme gera pela tecnologia sejam fantásticos e ajudem a dar pontos positivos, o que realmente me vendeu o filme, e me fez ter uma consideração por ele maior do que por outros filmes, foram os seus temas. Isso porque esse não é apenas um filme sobre super-heróis. Não é apenas um filme sobre ciência. É também um filme sobre a superação da depressão.
            Ok, quem já assistiu a esse filme e não o achou grande coisa talvez pense que estou viajando aqui, mas pensem comigo. Ignorem todo o enredo de origem de super-herói do filme. Foquem-se nos personagens, na evolução deles ao longo do filme. O que temos? Temos um arco narrativo sobre um garoto que afundou em depressão após a morte do irmão e um robô que tenta ajuda-lo a superar a tragédia. Um tanto básico em termos de cinema no geral, mas quantas vezes vimos isso em animações da Disney? Em “Rei Leão”, demora apenas um “Hakuna Matata” para Simba voltar a ser feliz após a morte de seu pai. Em “Bambi”, nem isso: A primavera chega, os pássaros começam a cantar e pronto, quem se lembra de que a mãe do Bambi levou um tiro na cara?
            É, né? Pensando agora, isso não é algo assim tão comum nas animações da Disney, não? (nota: com Disney, quero dizer Disney mesmo. Eu sei que a Pixar já fez isso antes)

            Além disso, a forma como “Operação Big Hero” trata a depressão é uma das mais sinceras que já vi em um filme, olha lá um infantil: A forma como Hiro o tempo todo repete para si mesmo que está bem quando claramente não está, a forma como ele evita ajuda, mas ao mesmo tempo está desesperado por ter alguém ao seu lado, e sua explosão ao finalmente admitir seus problemas... O arco de depressão de Hiro chega até a me lembrar o de Shinji em “Neon Genesis Evangelion”, embora talvez um pouco mais otimista, para as crianças.
            E então temos Baymax de novo. Eu não sei se algum dos criadores do filme passou por depressão ou leu a respeito, mas boto minha mão no fogo que sim. Por quê? Porque Baymax é exatamente o tipo de pessoa que alguém que sofre de depressão precisa ter ao seu lado. Tipo, exatamente o tipo de pessoa. Ele não julga Hiro pela sua depressão. Não exige explicações. Não cobra absolutamente nada do garoto. Quando acha que Hiro está melhor, oferece-se para se afastar, porém não parte do princípio de que seu paciente (é assim que Baymax chama Hiro) irá aceitar, e se ele não aceita continua agindo como se a oferta nunca tivesse sido feita. O que ele faz, então? Fica ao lado de Hiro o tempo todo, sempre disposto a ajuda-lo da maneira que for melhor, não importa o quão estranha seja, porém ao mesmo tempo impondo certos limites para que o garoto não mergulhe em algum comportamento destrutivo. E mesmo quando impõe o limite, Baymax nunca o faz de forma grosseira. Em momento algum levanta a voz. Sempre que fala, é no mesmo tom gentil de quem só e apenas quer ajudar, e vai continuar ajudando e estando ao lado de Hiro até que este esteja satisfeito com o tratamento.

            ESSE é o motivo pelo qual gosto tanto desse filme: A forma sutil, porém extremamente sincera, como ele aborda um assunto que é quase um tabu em filmes infantis. Se você quiser ver esse filme como um simples filme de super-herói divertido, tudo bem; terá o que quer. Mas se você quiser vê-lo como algo mais, algo que possa não apenas divertir, mas também inspirar... “Operação Big Hero” é esse tipo de filme, e não duvido que pessoas que sofrem de depressão ou que conhecem alguém que sofre irão se identificar com o filme e, quem sabe, aprender algumas coisas com ele.


Avaliação: Vale muito a pena
P.S para os desavisados: O filme tem uma cena pós-créditos. Que é genial.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

A Teoria de Tudo

            “A Teoria de Tudo”.

            Não, sério. Só isso. Estou a mais de uma hora tentando arrumar um jeito engraçado e chamativo de começar essa crítica, e nenhum soa legal! Chega! Hoje não estou bem! Vamos então começar logo com isso!
            Imagino que muitos aqui já tenham assistido a esse filme e já tenham suas opiniões formadas sobre ele. É curioso, mas todo mundo parece ter uma opinião bastante forte sobre “A Teoria de Tudo”: Quem gosta, o defende ferrenhamente; quem não gosta, o ataca ferrenhamente. Até mesmo quem o achou mais ou menos argumenta com firmeza o porquê de esse ser um filme mais ou menos. Sendo assim, imagino que muitos de vocês nem vão ler essa crítica até o final assim que virem que não concordo com a opinião de vocês. Está tudo bem, eu compreendo. Mas vou escrever mesmo assim porque, como parece que aconteceu com todo mundo, terminei de assistir “A Teoria de Tudo” com impressões bem marcantes (para o bem ou para o mal), portanto achei necessário eventualmente fazer minha crítica.
            Como até mesmo quem não assistiu o filme já deve saber, ele narra a vida do famoso físico britânico Stephen Hawking. O da cadeira de rodas. Isso e também o que desenvolveu a teoria que diz que buracos negros emitem radiação, além de o primeiro a unir a teoria da relatividade geral e a física quântica em uma única explicação cosmológica. Mas, cá entre nós, sejamos sinceros: A maioria só o conhece pela cadeira de rodas.

            “A Teoria de Tudo” é oficialmente baseado no livro de memórias de Jane Wilde Hawking, com quem ele se casou em 1965. Como antes, não li o livro (ainda farei uma crítica da adaptação de um livro que li!), mas li o suficiente sobre Stephen Hawking antes de escrever essa crítica para saber que o filme diverge um pouco da vida dele. Embora, para o crédito do filme, não tanto quanto outros filmes biográficos semelhantes, como, digamos, “Uma Mente Brilhante”.
            Aliás, é possível encontrar várias semelhanças entre “A Teoria de Tudo” e “Uma Mente Brilhante”: Ambos contam a vida de algum cientista/matemático reconhecido por sua genialidade, porém com alguma grave condição física ou mental que vai evoluindo ao longo do filme; ambos optam por contar sua vida através de uma história de amor entre o cientista e sua esposa, que juntos aprendem a superar essa condição; coincidentemente, em ambos os casos o cientista em questão estava vivo na época em que o filme foi lançado. Com certeza há mais filmes com essas mesmas características, porém “Uma Mente Brilhante” foi o primeiro filme que me veio em mente ao assistir “A Teoria de Tudo”.

            Considerando então que “A Teoria de Tudo” é o tipo de filme que muitos de nós já vimos antes... O que ele traz de novo?
            Em primeiro lugar vamos ao que foi mais aclamado no filme: A atuação. Eddie Redmayne, o ator que interpreta Hawking, ganhou o Oscar de Melhor Ator ano passado, uma decisão que surpreendeu muita gente, considerando que Michael Keaton era considerado o favorito por seu papel em “Birdman”. Não cabe a mim julgar qual dos dois atuou melhor, ou se Redmayne merecia o Oscar ou não, mas direi uma coisa: Interpretar Stephen Hawking em um filme não é um trabalho fácil. Especialmente em um filme que mostra a progressão de sua doença (esclerose lateral amiotrófica, ou ALS, para quem quiser saber o nome), desde suas primeiras quedas e dificuldades em segurar objetos até o momento em que ele perde quase todos os movimentos e passa a ter que falar através de um computador. Há vários motivos para isso ser uma tarefa complicada para um ator: É preciso imitar as dificuldades crescentes que Hawking tinha em andar, falar, fazer movimentos básicos, até o ponto em que o ator tem que ficar parado em uma posição que não parece nem um pouco confortável... E mesmo assim transmitir uma variedade de emoções. Lembrem-se, duas das principais formas de transmitir emoções são através de linguagem corporal e tom de voz. E Stephen Hawking não possui nenhuma das duas. Se ainda é possível saber o que ele sente, é apenas através da misteriosa coisa tão difícil de imitar chamada “brilho nos olhos”.

            Como se isso não fosse desafio o suficiente para Redmayne, há também o fato de que geralmente as cenas de um filme não são filmadas em ordem cronológica. Assim, ele teve que continuamente ir e voltar em seu retrato da degeneração motora de Hawking: capaz de andar e falar normalmente, então só podendo mexer a cabeça e falando de forma quase incompreensível, então precisando de uma muleta para andar, então completamente parado e tendo que falar através de um computador, então andando com duas muletas, então andando normalmente de novo...
            Agora deixado claro que o filme não foi filmado em ordem cronológica, ao assistir “A Teoria de Tudo”, você percebeu isso? Percebeu que Eddie Redmayne teve que ir e voltar durante as filmagens quanto à progressão da doença? Se a resposta for “não” e você continua sendo enganado com a impressão de que tudo foi filmado em ordem cronológica, pode considerar Eddie Redmayne um bom ator. Se Michael Keaton teve seu Oscar roubado ou não, fica para outro dia.

            Agora, querem saber quem realmente foi roubada das premiações? Felicity Jones, que interpreta Jane Hawking. Por quê? Porque das dezesseis indicações a prêmios que ela recebeu pela sua atuação... Ela só ganhou UMA. E pior: O prêmio que ela recebeu foi o Prêmio Mulher Invisível, do Women Film Critics Circle (Círculo de Mulheres Críticas de Cinema). Ou seja: Um prêmio específico para atrizes talentosas que foram deixadas de lado por outras premiações. Isso é tão prêmio de consolação quanto um prêmio de consolação consegue ser! E isso é triste, porque, embora Jones não tivesse um desafio técnico tão grande quanto o de Redmayne, ela assumiu muito bem seu papel. Muito bem mesmo! Em nenhum momento se duvida que ela seja uma mulher que, por mais que ame seu marido, ao mesmo tempo é esmagada pelo estresse que sua condição traz para ela. É uma mulher que precisa quase tanto de ajuda quanto seu marido. E quando a ajuda finalmente chega... Bom, não vou estragar o filme pra quem ainda não assistiu nem conhece a história.

            Eu sei que 2014 foi um ano bastante acirrado em se tratando de atrizes, entre Juliane Moore, Rosamund Pike, Reese Witherspoon e várias outras fazendo algumas das melhores atuações de suas vidas. Mas ainda assim: Dezesseis indicações... Só uma? Sério isso?!
            Mas além das atuações, o que esse filme tem a oferecer? A resposta: A direção de James Marsh. É curioso ver como um diretor famoso principalmente por seus documentários é capaz de fazer um filme tão cheio de recursos visuais que tem mais a ver com o mundo da arte do que com o da realidade, entre iluminação, cores, cinematografia... Por vezes “A Teoria de Tudo” parece até uma pintura impressionista, com luzes, cores e até mesmo as posições dos personagens indicando o que passa na cabeça deles, seus sentimentos e conflitos, até mesmo a importância deles para o enredo.

            Há também um grande número de alusões visuais ao tempo: Círculos, espirais, objetos e pessoas movendo-se em sentido horário ou anti-horário, dependendo da ocasião... Constantemente o tema do tempo é explicitado visualmente. Embora a princípio pareça que o motivo disso tem a ver apenas com o tema da pesquisa de Hawking (seu principal livro se chama “Uma Breve História do Tempo”, e ao longo do filme todo Redmayne fala em pesquisar sobre o tempo, desenvolver uma fórmula sobre o tempo, voltar no tempo), percebe-se ao final do filme que o motivo vai além da pesquisa: Se estende para toda a vida de Hawking. Quando descobre sobre sua doença, Stephen ouve que terá apenas dois anos de vida. Três décadas depois, porém, o filme mostra ele e Jane relembrando tudo pelo que passaram juntos, tudo que lhes aconteceu, “tudo o que fizeram”. Não é um filme sobre o que Hawking foi capaz de fazer como cientista; é um filme sobre o que ele foi capaz de fazer como pessoa.

            Falando assim, chega a parecer piegas, mas a verdade é que... É, o filme é meio piegas.
            Pois é, por mais que eu tenha gostado do filme como uma união entre excelente elenco e excelente diretor, até eu tenho que assumir que ele falha no que a maioria dos filmes biográficos (especialmente os de pessoas vivas) falham: Ele simplesmente trata seus personagens de uma maneira gentil demais. Hawking aparece um cara super simpático (o que, lendo sobre ele, rapidamente se descobre que não é totalmente verdade). Como eu disse antes, eu não li o livro, então não sei como Jane Hawking o descreve, mas eu não sei, eu tenho minhas dúvidas após ver o filme de que ela o veja de maneira tão gentil assim.
            Aliás, gentil não: Por vezes o filme praticamente cai na idolatria a Stephen Hawking. Chega a ser difícil ficar irritado com ele, mesmo nos momentos em que ale de forma... Não exatamente o que se esperaria do herói de um filme, digamos assim.

            Não que isso torne o filme imediatamente ruim. Só o torna... Agradável. É o tipo de filme aconchegante para se assistir com a família, aconchegado no sofá. Talvez daqui a algum tempo aja um filme biográfico de Stephen Hawking que o trate de uma forma mais realista. O que seria interessante e possivelmente bom. Mas mesmo quando esse suposto filme for lançado, não acho que deva se desconsiderar os méritos de “A Teoria de Tudo”. Continua sendo um filme tecnicamente impecável, e bem mais artístico que a maioria dos filmes biográficos que você provavelmente encontrará na televisão.


Avaliação: Vale a pena

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Vale a Zoeira? A Reconquista

É hora de mais um “Vale a Zoeira?”, com eu tirando um pouco de sarro de mais um filme ruim. Dessa vez, o filme em questão será nenhum outro que não “A Reconquista”, de 2000.

            Talvez vocês achem um pouco cruel eu já partir do princípio de que esse filme será ruim. Afinal, no que posso me basear?
            Bom, se o fato de ele ter ganhado SETE prêmios Framboesa de Ouro (Pior Filme, Pior Diretor, Pior Roteiro, Pior Ator, Pior Ator Coadjuvante, Pior Atriz Coadjuvante e Pior Dupla, além de eventualmente ganhar os prêmios honorários de Pior “Drama” dos primeiros 25 anos do prêmio e Pior Filme da Década) não bastar, talvez o fato de ele estar em praticamente toda lista de “piores filmes de todos os tempos” seja embasamento o suficiente.
            Agora, uma vez aceito que esse filme irá feder, vale a pena assisti-lo mesmo assim apenas pela zoeira? Já vimos que o “Especial de Natal de Guerra nas Estrelas” é uma viajem surreal que estranhamente vale a pena, então vamos ver como esse filme se sai.
            Em primeiro lugar, é preciso enfatizar que “A Reconquista” é uma adaptação da primeira parte de um romance de mil páginas (que, para constar, não li) de L. Ron Hubbard. Se esse nome te soa familiar, é porque ele é o fundador da cientologia. Sim, aquela religião um tanto controversa da qual John Travolta é adepto. Eu enfatizo isso porque não apenas John Travolta atua no filme, como ele foi o idealizador dessa adaptação. Na verdade, ele queria tanto que esse filme fosse feito que não apenas doou US$ 5 milhões do seu próprio bolso para a produção como também aceitou atuar por um cachê muito mais baixo que o que estava aceitando na época.
            Seria de se imaginar que, com tanto amor pelo filme, Travolta tentaria atuar o melhor possível nele, certo? Bom... Vamos avaliar isso mais tarde. Por enquanto, vamos começar com o filme pelo seu começo.

            “A Reconquista” se passa no ano 3000. Os humanos vivem mais ou menos como na pré-história, pois mil anos antes a Terra foi invadida por uma raça alienígena chamada Psychlos, que quase exterminou a humanidade em sua busca por ouro.
            Ok, dois problemas apenas nessa introdução:
            1: Psychlos? É sério que esse é o nome dos nossos vilões? Se for pra dar um nome de desenho animado pra eles, chame-os logo de “Zurgs” ou “Snorks”!
            2: A menos que o seu filme se passe 200 anos atrás, não faça seus vilões virem atrás de ouro. Não é nem tão valioso quanto diamantes ou petróleo e nem tão engraçado quanto, digamos, sabão. É só... Ouro. Sem graça.

            Enfim, se essa introdução (feita na forma de um letreiro que em nada se parece com a introdução de Star Wars) não te der uma ideia do quão ruim esse filme é, os primeiros dez minutos do filme vão te dar.
            Em primeiro lugar, há o herói do filme, Jonnie “Goodboy” Tyler, interpretado por Barry Pepper. Além de Jonnie não ter carisma algum (além de sem-graça, ele está o tempo todo carrancudo e é antipático com quase todo mundo que encontra) e de não nos importarmos com seus problemas (logo no início ouvimos que seu pai morreu. Nunca vemos esse pai nem ouvimos mais falar nele, então quem se importa?), Pepper atua BEM mal. O que é uma pena, considerando que ele já ganhou um Globo de Ouro e um Emmy. Imagino que ele não estava se importando tanto com esse filme.

            Em segundo lugar, há o excesso de câmeras lentas. O diretor do filme, Roger Christian, claramente assistiu “Matrix” enquanto “A Reconquista” era produzido, e achou que seria uma boa ideia imitar as câmeras lentas do filme. Não foi: Em “Matrix”, as câmeras lentas ajudavam o público a ter uma noção da orgia de balas e lutas coreografadas que estavam acontecendo tudo ao mesmo tempo. Aqui, elas são usadas enquanto um cara joga algo para o alto, ou cai do cavalo, ou pula de uma sacada. Não são coisas tão empolgantes.
Em terceiro lugar, há as transições de cena. Toda vez que o filme muda de uma cena para outra a tela se divide como uma cortina. De novo, em nada parecido com Star Wars. O problema é que mesmo em Star Wars havia outros tipos de transição de cena. Aqui, é só e apenas a divisão de tela, de novo e de novo e de novo. Digamos que acaba cansando após a 20ª vez. Por acaso eles não tinham dinheiro pra pagar um editor que soubesse fazer mais de uma transição? Esse filme supostamente teve um orçamento de US$ 73 milhões!
            E em quarto lugar, temos provavelmente uma das características mais irritantes da direção desse filme: Os ângulos. Durante praticamente o filme inteiro, a câmera está entortada em algum ângulo. Acho que só cinco ou seis minutos em “A Reconquista” são filmados na horizontal. Uma cena ou outra seria até aceitável, mas após duas horas tendo que inclinar a cabeça pra ver o filme é provável que você fique com torcicolo. Por acaso o tripé deles quebrou e eles não tinham dinheiro pra comprar um novo, então filmaram mesmo assim? Esse filme supostamente teve um orçamento de US$ 73 milhões!

            Mas enfim, se após dez minutos de um herói ruim, câmeras lentas, divisões de tela e câmera torta você ainda não se cansar desse filme, você irá descobrir que Jonnie decidiu abandonar sua tribo em busca de uma vida melhor. Ou algo assim, quem se importa? Ele é então capturado pelos Psychlos... E não basta eles se parecerem com klingons rastafáris: Suas fantasias têm que ser ruins. Tipo, muito, muito ruins. A intenção do filme é que eles sejam bem maiores que os humanos, mas dá pra ver que eles são apenas atores normais usando roupas acolchoadas e botas com saltos gigantes.

            Por acaso não deu pra pagar por um figurino melhor? Esse filme supostamente teve um orçamento de US$ 73 milhões! Aonde foi parar todo esse dinheiro?!
            Bem... Acreditam se a resposta for “lugar nenhum”? E não estou falando isso de brincadeira. Eu estou falando que alguns anos após o lançamento desse filme o estúdio que o produziu, Franchise Pictures, passou por uma investigação do FBI que comprovou que o orçamento real do filme era na verdade de um pouco mais da metade desse valor alegado. O estúdio teria mentido sobre o orçamento para passar o filme por uma superprodução, o que chamaria mais a atenção dos distribuidores. Como é de se imaginar, a distribuidora europeia do filme não ficou nem um pouco satisfeita com esse golpe, abrindo um processo que acabou levando a Franchise Pictures à falência.
            Por que tenho a impressão de que um documentário sobre os bastidores de “A Reconquista” seria mais interessante que o filme em si?
            Mas voltando aos Psychlos. Não são tantas as vezes que tenho a oportunidade de dizer isso, mas... Esses são provavelmente alguns dos vilões mais estúpidos que já vi em qualquer filme. Não acreditam em mim? Eis alguns exemplos de sua estupidez:
            1: Mesmo após colonizar a Terra por mil anos em busca de ouro, eles nem sequer imaginam que exista um lugar como Fort Knox ou qualquer outro tipo de reserva de ouro em barras no planeta.
            2: Mesmo após colonizar a Terra por mil anos, eles ainda não sabem nada sobre humanos. E com nada, eu quero dizer que eles não sabem nem o que comemos!
            3: Eles não sabem nada sobre humanos, porém possuem uma máquina capaz de ENSINAR A LÍNGUA DOS PSYCHLOS PARA HUMANOS EM SEGUNDOS! Por que nunca usaram essa máquina antes em mil anos de colonização? Porque, como já falei, eles são completos idiotas!

            E o filme insiste em enfatizar que esses caras dizimaram todas as defesas da Terra em apenas nove minutos. Como?!
            E quando você acha que esse filme não podia ser mais ridículo, não podia ser mais mal atuado e não podia ter vilões mais idiotas... É nesse momento que aparece John Travolta.

            Oh, Travolta, Travolta... Por onde começo a falar dele em “A Reconquista”?
            Nesse filme, ele interpreta Terl, o chefe de segurança Psychlo na Terra. E simplesmente não é possível um filme ter um vilão mais caricato do que ele. Em absolutamente NENHUM momento você o vê como uma possível ameaça. Praticamente tudo que ele faz durante o filme é mentir, irritar qualquer um que se dirige a ele e fazer pegadinhas infantis à custa de alguns humanos. Seu momento mais “ameaçador” é quando ele decide demonstrar sua pontaria em algumas vacas (que não aparecem morrendo porque, como eu disse, esse filme não teve um orçamento de US$ 73 milhões). E mesmo assim, ao fazer isso ele vira as costas para os humanos, o que permite que eles o derrubem, imobilizem e lhe arranquem sua arma.
            Desculpe, é pra gente sentir medo dele?

            Como é de se imaginar, Terl não é exatamente alguém muito inteligente. Pra falar a verdade, ele é um pouco mais que isso: Ele é provavelmente o mais estúpido de todos os Psychlos do filme. E isso, como vocês já viram, quer dizer muito! Não acreditam em mim? Eis alguns exemplos de sua estupidez (além das vacas das quais já falamos):
            1: Quando ele manda um grupo de humanos minerarem um veio de ouro apenas com baldes e picaretas e estes lhe aparecem apenas duas semanas depois com centenas de barras de ouro perfeitamente moldadas, ele não acha isso nem um pouco suspeito.
            2: Quando um de seus subordinados lhe diz que um humano pegou uma arma e a disparou contra um Psychlo, não apenas ele acha que o subordinado está mentindo porque nenhum humano seria capaz de disparar uma arma, como também ELE ENTREGA UMA ARMA PARA ESSE MESMO HUMANO PARA PROVAR SEU ARGUMENTO! O que é que pode dar errado?!
            3: Quando esse humano de fato dispara a arma e mata seu subordinado, ao invés de matar o humano no mesmo instante, ELE DECIDE MANTÊ-LO VIVO, ENSINA-LHE SUA LÍNGUA, ENSINA-LHE TUDO SOBRE A HISTÓRIA, O CONHECIMENTO E AS CARACTERÍSTICAS DOS PSYCHLOS E AINDA ENSINA-LHE A PILOTAR UMA DE SUAS NAVES! Claro! Porque um humano jamais usaria isso tudo para liderar uma revolta contra os Psychlos!

            Parabéns, Travolta: Você acaba de interpretar o maior idiota da história do cinema! Divertiu-se, ao menos?
            A resposta: Sim. Se Pepper atua mal porque não se importava com o filme, Travolta atua pior ainda porque estava adorando tanto interpretar Terl que simplesmente não conseguia levar seu papel a sério. O filme inteiro ele fala de um jeito super exagerado, comparável aos vilões de James Bond mais ridículos. O auge é em uma cena em que supostamente Terl está bêbado. Chega a parecer que Travolta queria que esse filme fosse uma comédia. Infelizmente, sabemos que essa não era a intenção. Lembrem-se, esse filme é baseado em um livro escrito pelo homem que Travolta literalmente considera seu profeta. É como se a RPC quisesse que “Os Dez Mandamentos” fosse uma comédia.

             Infelizmente, é nessa hora que tenho que dizer que, por mais que Travolta seja mais engraçado em “A Reconquista” do que em qualquer gif que você deve ter visto no Facebook (aliás, por que não fazem um gif dele nesse filme?), não vale tanto a pena assistir esse filme, nem pela zoeira. Quando Travolta aparece, é hilário, e bem que poderiam fazer um corte apenas com todas as cenas em que ele guincha e gesticula as mãos por aí. Mas quando ele não aparece... Meu, que filme chato! Nem quando a revolta finalmente acontece, com naves, explosões e gente morrendo a torto e a direito (em uma batalha final que, de novo, em nada lembra a batalha final de Star Wars), é possível ficar empolgado ou ao menos intrigado com a ruindade do filme. Sem falar que, no geral, “A Reconquista” é um filme desagradável. Não é só o torcicolo de tanto ter que inclinar a cabeça. O filme é feio. É estúpido. É o tipo de filme que faz você pensar em quantas coisas tão melhores você poderia estar fazendo, como olhar pra parede. Não recomendo nem assisti-lo para um jogo de bebida (ainda mais porque, se o jogo for “um shot pra cada divisão de tela”, você estará morto antes da metade do filme). Só o recomendaria para os verdadeiros entusiastas de filmes ruins, como eu, que querem ver tudo o que não deve ser feito em um filme. Ao mesmo tempo. Não é como no “Especial de Natal de Guerra nas Estrelas”, que você fica o filme inteiro com uma expressão parecida com

            É mais o tipo de filme que metade do tempo você assiste com uma expressão parecida com



Avaliação: Desagradável demais pra valer a zoeira