É curioso como “Rocky” é uma das poucas
franquias em que quase todos os filmes, em maior ou menor grau, possuem sua
dose de “iconicidade” (deve haver uma palavra correta, mas não estou a fim de
procurar no dicionário). Não é apenas um primeiro filme muito bom seguido de
uma série de continuações esquecíveis: Praticamente todos os filmes, mesmo os
piores, possuem algo que entrou para a história do cinema, seja uma luta, uma
fala, uma música, uma montagem de treinamento... Todos contribuíram para a
série de alguma forma, tornando a franquia em si muito mais famosa que qualquer
filme individualmente.
Com
isso dito, vamos para “Rocky 2 – A Revanche”, o primeiro filme da série que Sylvester
Stallone não apenas escreveu o roteiro e atuou, mas também dirigiu.
Em
primeiro lugar, admito que uma continuação de “Rocky” não era uma das coisas
mais necessárias do cinema. O primeiro filme é perfeitamente “fechado”, uma
saga do anonimato à fama que não precisaria de outro filme para conclui-la.
Porém,
fiquei surpreso com o quanto que “Rocky 2” se
faz necessário. Não é apenas a mesma história do primeiro filme. Quero
dizer, sim, muito de sua estrutura narrativa é quase idêntico (embora,
considerando o quão simples a estrutura narrativa de “Rocky” é e o quanto ela
precisa manter-se simples para ter o charme que tem, não havia muitas outras
opções), mas ao mesmo tempo em que pega bastante coisa emprestado do primeiro
filme, também desenvolve sua história de um jeito bastante natural. É possível
dizer que foi mais ou menos nesse filme que Rocky Balboa deixou de ser apenas
um protagonista de um filme legal e passou a ser uma pessoa, e a franquia “Rocky” sua “biografia”.
“Rocky
2”, embora tenha sido feito três anos após o original, começa imediatamente
após a luta entre Rocky Balboa e Apollo Creed, com ambos chegando no hospital
para terem seus ferimentos tratados. Assim que Apollo vê Rocky, porém, com os
dois ainda em suas cadeiras de rodas e rodeados de jornalistas, começa a dizer
que Rocky só não foi nocauteado por pura sorte, e que Creed seria capaz de nocauteá-lo
“em qualquer lugar, a qualquer hora”. Em outras palavras, Creed quer que Rocky
peça uma revanche, apesar de ambos terem concordado ao final da luta no
primeiro filme que não haveria revanche, independentemente do resultado.
Acontece
que Rocky não quer uma revanche; aliás, ele nem quer mais lutar, considerando
agora em se “aposentar”, casar com Adrian e ter algum emprego que não o faça
levar quinhentos socos em uma única noite, decisão que lhe é incentivada depois
que o médico lhe diz que sua luta com Creed danificou severamente seu olho, e
que uma nova luta poderia deixa-lo cego. E, de fato, assim que sai do hospital
as primeiras coisas que ele faz são pedir Adrian em casamento e assinar um
contrato de US$ 300 mil para participar em comerciais. Ao longo dos dias
seguintes, Rocky compra um carro, roupas caras, joias e uma boa casa. Adrian a
princípio fica preocupada com todas essas depesas, mas suas preocupações logo
se diluem ao descobrir que está grávida.
Mas,
sendo um filme, não demora muito para as coisas começarem a desandar, pois o
contrato de Rocky para fazer comerciais é logo cancelado devido a sua
incapacidade de atuar.
Eu
sinto que deveria fazer uma piada aqui, mas considerando a onda de fúria depois
que Stallone não ganhou o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante esse ano, irei
deixa-lo em paz. Apesar de ele também ter atuado em “Cobra” e “O Juíz”, mas
mesmo assim, dessa vez deixarei de lado a oportunidade de fazer uma piada
fácil.
Rocky
até tenta procurar então algum emprego decente, mas devido a sua baixa
escolaridade e principalmente devido à sua fama de lutador, a única coisa que
ele consegue é um trabalho extremamente cansativo no açougue onde ele treinou
no primeiro filme... E do qual, apesar de sua dedicação, ele é demitido logo em
seguida devido a um corte de pessoal. Devido às dificuldades financeiras,
Adrian arruma um emprego de meio período no pet shop em que trabalhava no
primeiro filme, o que além de colocar sua gravidez em risco devido ao esforço
pesado, fere também o orgulho de Rocky, que então se vê obrigado a se rebaixar
ao último nível e virar faxineiro em sua antiga academia de boxe, tendo que
limpar o suor e os baldes de cuspe daqueles que antes o viam como um herói.
Ao
mesmo tempo, vê-se que Apollo Creed também não está em uma boa situação. Apesar
de ter ganhado a luta por pontos, ele constantemente recebe cartas de ódio de
pessoas dizendo que sua vitória foi comprada, que Rocky devia ter ganhado.
Algumas delas chegam a ser bem pesadas, com Creed lendo uma em voz alta que diz
que ele deveria se matar! (como um jovem do século 21, de certa forma essas
cartas me dão um alívio por mostrar que o chorume humano não foi inventado pela
internet) Sua família, seu treinador e seus assessores, todos o aconselham a
não ter uma revanche com Rocky, pois sabem que ele não se deixará ser
nocauteado, não importa quantas vezes Creed bata nele, mas este não quer saber.
Ele quer provar ao mundo que sua vitória no filme anterior não foi uma fraude,
e que ele é capaz de vencê-lo de novo de forma inquestionável. E, para isso,
ele está disposto a manchar sua reputação e humilhar publicamente Rocky para
incentiva-lo a pedir por uma revanche... O que é óbvio que Rocky pede, mas não
sem antes Adrian deixar bem claro que desaprova ele arriscar sua saúde dessa
forma.

Como
uma boa continuação, “Rocky 2” é mais complexo que o filme original,
desenvolvendo mais seus personagens, porém sem perder a simplicidade do primeiro
filme. Tudo em “Rocky 2” é sobre os personagens, com quase todos do primeiro
filme retornando e quase nenhum novo sendo acrescentado. Isso ajuda a lhe dar
maior importância, fazendo com que o primeiro filme e este pareçam uma coisa só,
de fato a “Parte 1” e a “Parte 2” de uma única grande saga. É nesse filme também
que alguns dos personagens secundários deixaram de ser apenas rostos falantes
que mudam a vida de Rocky e passam a ser personagens de verdade, com suas
personalidades, modos de pensar e papeis mais bem definidos: Adrian passa a ser
não apenas o amor da vida de Rocky, mas também o apoio moral que decide se ele
irá participar de uma nova luta ou não; Mickey torna-se o treinador com métodos
pouco ortodoxos (para Rocky melhorar sua velocidade, ele o manda pegar uma
galinha) e a boca pronta para insultar qualquer um, mas que está o tempo todo
ao lado de Rocky para garantir que este não desista de lutar e dar o seu melhor
e que lhe serve como uma espécie de figura paterna (a ponto de a imagem que
aparece durante os créditos finais do filme ser a de Rocky e Mickey se
abraçando); e Creed torna-se o grande adversário de Rocky, ambos tendo uma
relação de ódio mas também de respeito pela força um do outro.
Aliás,
é interessante notar o constante paralelo que o filme faz entre Rocky e Creed:
Ambos são constantemente avisados pelos seus conhecidos para não lutarem de
novo um contra o outro, pois tal luta poderia destruí-los, porém ambos acabam
aceitando o desafio, não apenas porque resolver essa disputa é o único jeito de
recuperarem seus respectivos respeitos e autoestimas e de seguirem em frente
com suas vidas, mas também porque lutar é a única coisa que ambos sabem fazer
bem. Assim, enquanto no primeiro filme a carga emocional estava toda em Rocky,
pois a luta importava apenas para ele enquanto Creed levava tudo na
brincadeira, agora a luta é importante para ambos, e ambos os lados possuem
assim sua carga emocional... Embora, como seria de se imaginar, torça-se mais
por Rocky, a grande zebra da história dos filmes de esporte.
E
então temos a direção de Sylvester Stallone. E quanto a ela, posso dizer... É,
poderia ser melhor. Quero dizer, claramente Stallone aprendeu bastante coisa
sobre como dirigir um filme com John Avildsen, porém não sem dar seus próprios toques
pessoais a esse filme. E honestamente nem todos eram necessários, a maioria
deles dando ao filme um tom bem mais brega, como o excesso de câmeras lentas, toda
a cena de Rocky tentando fazer um comercial (que, se for levar em consideração
os comerciais dos anos 70 que tive a chance de assistir, não é tão fora da
realidade, mas mesmo assim não deixa de ser um tanto ridículo) e, claro, a
forma como Stallone resolveu repetir a cena da corrida até a escadaria: Com
aparentemente todas as crianças de Philadelphia correndo junto com ele por
nenhum motivo que não seja... Bem, porque ele é Rocky Balboa e Stallone achou
que isso ficaria mais legal que a cena de Avildsen, o que apenas... Não.
Mas
ei, estamos comparando aqui o cara que veio a dirigir mais tarde “Karate Kid”
com o cara que veio a dirigir mais tarde a continuação de “Os Embalos de Sábado
a Noite”. É preciso dizer mais?
Embora,
se for dar um crédito à direção de Stallone, é que ele dá muito mais
intensidade para o treinamento e para a luta final. Enquanto no primeiro filme
Avildsen tentava dar ao treinamento de Rocky, assim como ao filme todo, um tom
dramático e até meio artístico, aqui Stallone usa o treinamento para mostrar o
quanto que essa luta significa para seu personagem. O tempo todo, enquanto
levanta pesos, faz flexões, abdominais ou soca sacos de pancada, ele está
grunhindo, enquanto Mickey lhe grita “Mais rápido! Mais rápido!”. A própria
trilha sonora dá maior intensidade à cena, pois durante seu treinamento toca “Going
the Distance”, a mesma música que tocou durante a luta de Rocky e Creed no
primeiro filme, mostrando que o treinamento dessa vez é tão importante quanto a
luta em si, pois se Rocky não conseguir se tornar mais forte e mais rápido que
Creed ele pode levar um soco que o deixará cego de vez. E tal intensidade é
justificada pelo enredo do filme, pois no começo Rocky não consegue se focar no
treinamento devido à desaprovação de Adrian, e após um incidente sobre o qual
não falarei aqui, ele até considera desistir da revanche. Mas quando ele
finalmente leva o treinamento a sério (de novo, por um motivo que não falarei
aqui para não estragar o filme), ele passa a leva-lo realmente a sério. O objetivo agora não é mais apenas aguentar até
o último round, como na luta
anterior: Agora ele precisa vencer, e
para isso ele precisa melhorar a qualquer custo.
E
então temos a luta final, a tão esperada revanche entre Rocky e Creed. E se a
luta do filme original já foi brutal, dessa vez é um verdadeiro massacre, pois
Creed, mais do que interessado em vencer, está interessado em nocautear Rocky a
qualquer custo. E, de fato, Rocky é derrubado logo no primeiro round. Claro que ele se levanta logo em
seguida, mas é evidente quem está tendo a vantagem na luta. Dessa vez, não é nenhuma
“luta do século”: Como Mickey diz a Rocky, “Esse cara não quer apenas vencer,
ele quer te enterrar, ele quer te humilhar, ele quer provar ao mundo inteiro
que não foi nada além de uma aberração a primeira vez”. E é isso que Creed faz,
dando soco após soco em Rocky sem que esse consiga se defender, todo o seu
treino apenas evitando que ele morra.
E mesmo assim, Rocky continua
de pé. Na metade do filme, falando sobre a luta anterior entre os dois, o
treinador de Creed diz: “Eu vi você bater naquele homem como nunca vi homem
algum apanhar antes, e o homem continuava vindo em sua direção”. Essa é a
melhor descrição possível para essa revanche, multiplicada por dez. E, como
tudo nos filmes de “Rocky”, a trilha sonora torna a luta ainda mais impactante.
Dessa vez, porém, não é o tom esperançoso do homem que está fazendo um milagre
de “Going the Distance”; a trilha que toca aqui é “Conquest”, mais pesada,
dura, até militar, mostrando que dessa vez, o clima entre Rocky e Creed é de
guerra, e que se for necessário eles podem muito bem se matar no ringue, um ao
outro e a si mesmos. E quando chega o último round... Bom, pararei por aqui para não lhes estragar a experiência
de assistir o filme.
Avaliação: Vale a pena.
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