domingo, 3 de abril de 2016

Rocky II - A Revanche

É curioso como “Rocky” é uma das poucas franquias em que quase todos os filmes, em maior ou menor grau, possuem sua dose de “iconicidade” (deve haver uma palavra correta, mas não estou a fim de procurar no dicionário). Não é apenas um primeiro filme muito bom seguido de uma série de continuações esquecíveis: Praticamente todos os filmes, mesmo os piores, possuem algo que entrou para a história do cinema, seja uma luta, uma fala, uma música, uma montagem de treinamento... Todos contribuíram para a série de alguma forma, tornando a franquia em si muito mais famosa que qualquer filme individualmente.
            Com isso dito, vamos para “Rocky 2 – A Revanche”, o primeiro filme da série que Sylvester Stallone não apenas escreveu o roteiro e atuou, mas também dirigiu.

            Em primeiro lugar, admito que uma continuação de “Rocky” não era uma das coisas mais necessárias do cinema. O primeiro filme é perfeitamente “fechado”, uma saga do anonimato à fama que não precisaria de outro filme para conclui-la.
            Porém, fiquei surpreso com o quanto que “Rocky 2” se faz necessário. Não é apenas a mesma história do primeiro filme. Quero dizer, sim, muito de sua estrutura narrativa é quase idêntico (embora, considerando o quão simples a estrutura narrativa de “Rocky” é e o quanto ela precisa manter-se simples para ter o charme que tem, não havia muitas outras opções), mas ao mesmo tempo em que pega bastante coisa emprestado do primeiro filme, também desenvolve sua história de um jeito bastante natural. É possível dizer que foi mais ou menos nesse filme que Rocky Balboa deixou de ser apenas um protagonista de um filme legal e passou a ser uma pessoa, e a franquia “Rocky” sua “biografia”.

            “Rocky 2”, embora tenha sido feito três anos após o original, começa imediatamente após a luta entre Rocky Balboa e Apollo Creed, com ambos chegando no hospital para terem seus ferimentos tratados. Assim que Apollo vê Rocky, porém, com os dois ainda em suas cadeiras de rodas e rodeados de jornalistas, começa a dizer que Rocky só não foi nocauteado por pura sorte, e que Creed seria capaz de nocauteá-lo “em qualquer lugar, a qualquer hora”. Em outras palavras, Creed quer que Rocky peça uma revanche, apesar de ambos terem concordado ao final da luta no primeiro filme que não haveria revanche, independentemente do resultado.
            Acontece que Rocky não quer uma revanche; aliás, ele nem quer mais lutar, considerando agora em se “aposentar”, casar com Adrian e ter algum emprego que não o faça levar quinhentos socos em uma única noite, decisão que lhe é incentivada depois que o médico lhe diz que sua luta com Creed danificou severamente seu olho, e que uma nova luta poderia deixa-lo cego. E, de fato, assim que sai do hospital as primeiras coisas que ele faz são pedir Adrian em casamento e assinar um contrato de US$ 300 mil para participar em comerciais. Ao longo dos dias seguintes, Rocky compra um carro, roupas caras, joias e uma boa casa. Adrian a princípio fica preocupada com todas essas depesas, mas suas preocupações logo se diluem ao descobrir que está grávida.

            Mas, sendo um filme, não demora muito para as coisas começarem a desandar, pois o contrato de Rocky para fazer comerciais é logo cancelado devido a sua incapacidade de atuar.
            Eu sinto que deveria fazer uma piada aqui, mas considerando a onda de fúria depois que Stallone não ganhou o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante esse ano, irei deixa-lo em paz. Apesar de ele também ter atuado em “Cobra” e “O Juíz”, mas mesmo assim, dessa vez deixarei de lado a oportunidade de fazer uma piada fácil.

                Rocky até tenta procurar então algum emprego decente, mas devido a sua baixa escolaridade e principalmente devido à sua fama de lutador, a única coisa que ele consegue é um trabalho extremamente cansativo no açougue onde ele treinou no primeiro filme... E do qual, apesar de sua dedicação, ele é demitido logo em seguida devido a um corte de pessoal. Devido às dificuldades financeiras, Adrian arruma um emprego de meio período no pet shop em que trabalhava no primeiro filme, o que além de colocar sua gravidez em risco devido ao esforço pesado, fere também o orgulho de Rocky, que então se vê obrigado a se rebaixar ao último nível e virar faxineiro em sua antiga academia de boxe, tendo que limpar o suor e os baldes de cuspe daqueles que antes o viam como um herói.
            Ao mesmo tempo, vê-se que Apollo Creed também não está em uma boa situação. Apesar de ter ganhado a luta por pontos, ele constantemente recebe cartas de ódio de pessoas dizendo que sua vitória foi comprada, que Rocky devia ter ganhado. Algumas delas chegam a ser bem pesadas, com Creed lendo uma em voz alta que diz que ele deveria se matar! (como um jovem do século 21, de certa forma essas cartas me dão um alívio por mostrar que o chorume humano não foi inventado pela internet) Sua família, seu treinador e seus assessores, todos o aconselham a não ter uma revanche com Rocky, pois sabem que ele não se deixará ser nocauteado, não importa quantas vezes Creed bata nele, mas este não quer saber. Ele quer provar ao mundo que sua vitória no filme anterior não foi uma fraude, e que ele é capaz de vencê-lo de novo de forma inquestionável. E, para isso, ele está disposto a manchar sua reputação e humilhar publicamente Rocky para incentiva-lo a pedir por uma revanche... O que é óbvio que Rocky pede, mas não sem antes Adrian deixar bem claro que desaprova ele arriscar sua saúde dessa forma.

            Como uma boa continuação, “Rocky 2” é mais complexo que o filme original, desenvolvendo mais seus personagens, porém sem perder a simplicidade do primeiro filme. Tudo em “Rocky 2” é sobre os personagens, com quase todos do primeiro filme retornando e quase nenhum novo sendo acrescentado. Isso ajuda a lhe dar maior importância, fazendo com que o primeiro filme e este pareçam uma coisa só, de fato a “Parte 1” e a “Parte 2” de uma única grande saga. É nesse filme também que alguns dos personagens secundários deixaram de ser apenas rostos falantes que mudam a vida de Rocky e passam a ser personagens de verdade, com suas personalidades, modos de pensar e papeis mais bem definidos: Adrian passa a ser não apenas o amor da vida de Rocky, mas também o apoio moral que decide se ele irá participar de uma nova luta ou não; Mickey torna-se o treinador com métodos pouco ortodoxos (para Rocky melhorar sua velocidade, ele o manda pegar uma galinha) e a boca pronta para insultar qualquer um, mas que está o tempo todo ao lado de Rocky para garantir que este não desista de lutar e dar o seu melhor e que lhe serve como uma espécie de figura paterna (a ponto de a imagem que aparece durante os créditos finais do filme ser a de Rocky e Mickey se abraçando); e Creed torna-se o grande adversário de Rocky, ambos tendo uma relação de ódio mas também de respeito pela força um do outro.
            Aliás, é interessante notar o constante paralelo que o filme faz entre Rocky e Creed: Ambos são constantemente avisados pelos seus conhecidos para não lutarem de novo um contra o outro, pois tal luta poderia destruí-los, porém ambos acabam aceitando o desafio, não apenas porque resolver essa disputa é o único jeito de recuperarem seus respectivos respeitos e autoestimas e de seguirem em frente com suas vidas, mas também porque lutar é a única coisa que ambos sabem fazer bem. Assim, enquanto no primeiro filme a carga emocional estava toda em Rocky, pois a luta importava apenas para ele enquanto Creed levava tudo na brincadeira, agora a luta é importante para ambos, e ambos os lados possuem assim sua carga emocional... Embora, como seria de se imaginar, torça-se mais por Rocky, a grande zebra da história dos filmes de esporte.

            E então temos a direção de Sylvester Stallone. E quanto a ela, posso dizer... É, poderia ser melhor. Quero dizer, claramente Stallone aprendeu bastante coisa sobre como dirigir um filme com John Avildsen, porém não sem dar seus próprios toques pessoais a esse filme. E honestamente nem todos eram necessários, a maioria deles dando ao filme um tom bem mais brega, como o excesso de câmeras lentas, toda a cena de Rocky tentando fazer um comercial (que, se for levar em consideração os comerciais dos anos 70 que tive a chance de assistir, não é tão fora da realidade, mas mesmo assim não deixa de ser um tanto ridículo) e, claro, a forma como Stallone resolveu repetir a cena da corrida até a escadaria: Com aparentemente todas as crianças de Philadelphia correndo junto com ele por nenhum motivo que não seja... Bem, porque ele é Rocky Balboa e Stallone achou que isso ficaria mais legal que a cena de Avildsen, o que apenas... Não.
            Mas ei, estamos comparando aqui o cara que veio a dirigir mais tarde “Karate Kid” com o cara que veio a dirigir mais tarde a continuação de “Os Embalos de Sábado a Noite”. É preciso dizer mais?

            Embora, se for dar um crédito à direção de Stallone, é que ele dá muito mais intensidade para o treinamento e para a luta final. Enquanto no primeiro filme Avildsen tentava dar ao treinamento de Rocky, assim como ao filme todo, um tom dramático e até meio artístico, aqui Stallone usa o treinamento para mostrar o quanto que essa luta significa para seu personagem. O tempo todo, enquanto levanta pesos, faz flexões, abdominais ou soca sacos de pancada, ele está grunhindo, enquanto Mickey lhe grita “Mais rápido! Mais rápido!”. A própria trilha sonora dá maior intensidade à cena, pois durante seu treinamento toca “Going the Distance”, a mesma música que tocou durante a luta de Rocky e Creed no primeiro filme, mostrando que o treinamento dessa vez é tão importante quanto a luta em si, pois se Rocky não conseguir se tornar mais forte e mais rápido que Creed ele pode levar um soco que o deixará cego de vez. E tal intensidade é justificada pelo enredo do filme, pois no começo Rocky não consegue se focar no treinamento devido à desaprovação de Adrian, e após um incidente sobre o qual não falarei aqui, ele até considera desistir da revanche. Mas quando ele finalmente leva o treinamento a sério (de novo, por um motivo que não falarei aqui para não estragar o filme), ele passa a leva-lo realmente a sério. O objetivo agora não é mais apenas aguentar até o último round, como na luta anterior: Agora ele precisa vencer, e para isso ele precisa melhorar a qualquer custo.
            E então temos a luta final, a tão esperada revanche entre Rocky e Creed. E se a luta do filme original já foi brutal, dessa vez é um verdadeiro massacre, pois Creed, mais do que interessado em vencer, está interessado em nocautear Rocky a qualquer custo. E, de fato, Rocky é derrubado logo no primeiro round. Claro que ele se levanta logo em seguida, mas é evidente quem está tendo a vantagem na luta. Dessa vez, não é nenhuma “luta do século”: Como Mickey diz a Rocky, “Esse cara não quer apenas vencer, ele quer te enterrar, ele quer te humilhar, ele quer provar ao mundo inteiro que não foi nada além de uma aberração a primeira vez”. E é isso que Creed faz, dando soco após soco em Rocky sem que esse consiga se defender, todo o seu treino apenas evitando que ele morra.
E mesmo assim, Rocky continua de pé. Na metade do filme, falando sobre a luta anterior entre os dois, o treinador de Creed diz: “Eu vi você bater naquele homem como nunca vi homem algum apanhar antes, e o homem continuava vindo em sua direção”. Essa é a melhor descrição possível para essa revanche, multiplicada por dez. E, como tudo nos filmes de “Rocky”, a trilha sonora torna a luta ainda mais impactante. Dessa vez, porém, não é o tom esperançoso do homem que está fazendo um milagre de “Going the Distance”; a trilha que toca aqui é “Conquest”, mais pesada, dura, até militar, mostrando que dessa vez, o clima entre Rocky e Creed é de guerra, e que se for necessário eles podem muito bem se matar no ringue, um ao outro e a si mesmos. E quando chega o último round... Bom, pararei por aqui para não lhes estragar a experiência de assistir o filme.


Avaliação: Vale a pena.

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