domingo, 1 de maio de 2016

Um dia de preguiça: Billy Wilder

"Hum, tem certeza disso? Não quer finalmente terminar aquela coisa de criticar a Trilogia das Cores?"
"Aff, sai daqui!"
"Ah, qual é, por que não?"
"Porque sou terrivelmente preguiçoso!"
"Ah, tudo bem então."         

O que foi? É verdade! Esse texto aí embaixo não é nenhuma tentativa minha de fazer algo novo para ver se gera mais interesse pelo meu blog. É só eu sendo preguiçoso demais para assistir um filme e critica-lo depois de terminar um pequeno trabalho para uma optativa de história do cinema que estou fazendo na faculdade. Aí minha mente procrastinante pensou "Ei, por que não aproveito que já tenho algo sobre cinema em mãos e publico isso enquanto passo um domingo tranquilamente ouvindo música e assistindo desenhos animados?" E bum, eis aqui um pequeno resumo da vida e obra de Billy Wilder. Eu podia escolher entre Billy Wilder e Orson Welles, mas considerando que só assisti dois filmes do Welles até agora, Wilder será. É uma forma barata de fugir de um compromisso que criei comigo mesmo, mas então de novo, estou apenas aqui ouvindo a trilha sonora de Cavaleiros do Zodíaco! Então aproveitem para julgar esse resumo e pensar em todas as formas de melhora-lo para eu ao final entregar um trabalho bonitinho para o professor... Apenas para descobrirem horrorizados que já entreguei esse trabalho e não há como voltar atrás!

   Nascido na cidade de Sucha, na Áustria-Hungria (atualmente Polônia), em 1906, Billy Wilder (nascido Samuel Wilder) começou sua carreira no cinema em 1929, escrevendo roteiros para filmes mudos, e depois falados, na Alemanha, onde trabalhava como jornalista em Berlim, conhecendo assim personalidades do cinema alemão como Marlene Dietrich e frequentando os ambientes teatrais da cidade. Um de seus filmes mais famosos desse período é “Gente no Domingo” (1930), um filme mudo de baixíssimo orçamento com surpreendente sucesso, considerado precursor do neorrealismo, que além de Wilder também trouxe fama a nomes como os irmãos Robert e Curt Siodmak (que dirigiram o filme) e Edgar Ulmer (que o produziu).
Após a ascensão de Adolf Hitler ao poder, Wilder, que era judeu, fugiu para Paris, onde escreveu e, pela primeira vez, dirigiu “Semente do Mal” (1934), estrelando a então jovem atriz Danielle Darrieux em um de seus primeiros filmes. Em “Semente do Mal” já é possível notar algumas das principais características autorais de Wilder, como a visão crítica em relação à sociedade (a trama acompanha um filho de um médico conceituado que se envolve com uma quadrilha de ladrões de automóveis) e uma maior aproximação do estilo cinematográfico hollywoodiano, em comparação com as vanguardas e com o realismo poético vigentes na França na época.
De Paris, mudou-se então para os Estados Unidos com a ajuda do cineasta Joe May, austríaco já estabelecido em Hollywood, que Wilder já conhecia de quando vivia na Alemanha e para quem havia enviado o roteiro de “Música no Ar”.  Segundo Wilder, quando o funcionário da embaixada norte-americana perguntou-lhe sua profissão e esse respondeu que era cineasta, o oficial carimbou seus documentos e concedeu-lhe o visto de permanência de seis meses com a condição de “fazer então filmes bons”. Wilder viria a receber a naturalização estaounidense ainda em 1934.
Apesar de mal saber falar inglês na época, estabeleceu-se em Hollywood, onde por um tempo dividiu apartamento com o ator Peter Lorre, que, como ele, também era um judeu que trabalhava na Alemanha até a ascensão do governo nazista, fugindo então de lá. Este, através de seus contatos, ajudou Wilder, que rapidamente aprendeu inglês, a retomar sua carreira como roteirista, assinando os roteiros como “Billy Wilder”, derivado do apelido que sua mãe, fascinada como ele pela cultura americana, lhe dava.
Escrevia geralmente em parceria com outros roteiristas, embora exercendo grande controle durante o processo criativo. Seu principal colaborador foi Charles Brackett, com quem começou a trabalhar no roteiro de “A Oitava Esposa de Barba-Azul” (1938), em uma parceria que duraria doze anos, com Brackett primeiro co-escrevendo e, a partir de 1942, produzindo seus filmes. Alguns dos filmes que escreveu durante esse período, como “Ninotchka” (1939) e “Bola de Fogo” (1941), mais tarde ganhariam o status de clássicos.
Outra figura importante para Wilder durante este período foi Ernst Lubitsch, cineasta alemão que escreveu diversos roteiros para filmes mudos, tanto na Alemanha quanto, a partir de 1922, nos Estados Unidos, e que com o advento do cinema falado tornou-se produtor da Paramount. Lubitsch produziu alguns dos primeiros filmes americanos de Wilder, que tinha por ele uma grande admiração, a ponto de pendurar na parede em frente à sua escrivaninha uma placa onde se lia “Como Lubitsch faria?”.
Em 1942, decepcionado com a forma como outros diretores “arruinavam” seus roteiros, voltou a, além de escrever, dirigir filmes, após um hiato de oito anos depois de “Semente do Mal”, e aproveitando que naquele momento os grandes estúdios de Hollywood estavam começando a deixar alguns roteiristas como John Huston e Joseph Mankiewics dirigirem seus próprios roteiros. Em uma entrevista à revista “The Paris Review”, ele disse: “Eu apenas queria proteger o roteiro. Eu não tinha nenhuma assinatura ou estilo, exceto daquilo que aprendi de quando estava trabalhando com Lubitsch e de analisar seus filmes – fazer as coisas o mais elegante e simples possível”. O primeiro filme que Wilder dirigiu nos Estados Unidos foi “A Incrível Suzana”, estrelando Ginger Rogers, depois escrevendo/dirigindo filmes como “Cinco Covas no Egito” (1943) e “Pacto de Sangue” (1944), este último tendo co-escrito com o autor de histórias policiais Raymond Chandler. Em 1945, recebeu seus dois primeiros Oscars, como roteirista e como diretor, pelo filme “Farrapo Humano”. Ao longo de sua vida, viria a ser indicado ao Oscar 21 vezes (12 vezes como roteirista, 8 como diretor, e uma vez como produtor de Melhor Filme).
Após o fim da 2ª Guerra Mundial, Wilder voltou à Alemanha como coronel em uma missão do exército americano para reconstruir a indústria cinematográfica alemã. Aproveitando-se disso, filmou em Berlim “A Mundana” (1948), estrelando sua conhecida de seus tempos de jornalista Marlene Dietrich.
Após “Crepúsculo dos Deuses” (1950), último filme de sua parceria com Charles Brackett, e pelo qual ganhou seu segundo Oscar de Melhor Roteiro, passou a, além de escrever e dirigir, também produzir a maioria de seus filmes, começando com “A Montanha dos Sete Abutres” (1951). A partir daí, sua filmografia se constitui principalmente de comédias, que, embora nem sempre sucessos de bilheteria, eram bastante cínicas e com um forte teor satírico, como “Se Meu Apartamento Falasse” (1960), pelo qual fez o feito de receber por um único filme os Oscars de Melhor Filme, Melhor Direção e Melhor Roteiro. Aposentou-se em 1981 após dirigir seu último filme “Amigos, Amigos, Negócios à Parte”, terminando com uma carreira de mais de cinquenta anos e 60 filmes, 27 dos quais dirigiu. Morreu em seu apartamento em Los Angeles de pneumonia em 2002, aos 95 anos de idade.
Um dos poucos cineastas hollywoodianos com grande autonomia criativa durante o período do Código Hays (1930-1968), que estabelecia regras de censura com forte teor moral e conservador aos estúdios americanos, Billy Wilder sempre exigia direito sobre o corte final de seus filmes, algo raro na época que Wilder chamava de “era dos estúdios”, em que o produtor, mais do que o diretor e principalmente mais do que o roteirista, era quem tinha o real controle sobre o filme.
Apesar de ter tentado manter ao longo de sua carreira como diretor um estilo de filmagem discreto (tendo até dito em certa ocasião que “o melhor diretor é aquele que você não vê), acreditando que o diretor por si só não é o autor de um filme e sempre se autodeclarando como escritor, seus filmes são marcados por várias características narrativas e estéticas recorrentes: Seus protagonistas, por exemplo, são geralmente bastante espertos, moral ou socialmente imperfeitos e, não raro, seja por necessidade ou por ambição, tentam mudar de identidade, além de muitas vezes narrarem a história; as mulheres protagonistas de vários de seus filmes são retratadas como perigosas e manipuladoras, embora também possam ser às vezes ingênuas e românticas; muitos de seus filmes utilizam-se de baixa iluminação, grande contraste entre preto e branco (no caso de seus filmes não-coloridos) e de ângulos de fotografia inspirados no cinema noir; e, sua característica mais marcante, quase todos os seus filmes são bastante cínicos, especialmente nos diálogos, que retratam a humanidade de forma agridoce, algo muito criticado na época tanto por críticos quanto por grandes produtores de Hollywood, que não raro se sentiam ofendidos pelos seus filmes, como foi o caso de “Crepúsculo dos Deuses” (uma representação bastante pessimista de Hollywood) e “A Montanha dos Sete Abutres” (uma crítica ao jornalismo sensacionalista); porém, em menor ou maior grau, mostram esse cinismo de forma bem-humorada.

Mais de uma vez, disse em entrevistas que seu principal objetivo ao fazer filmes era que eles não entediassem o público. É conhecido também como um grande diretor de atores, dirigindo 14 atores e atrizes em performances indicadas ao Oscar, e também pela variedade de gêneros com os quais trabalhou, como filmes de guerra, dramas, policiais noir, musicais e comédias.

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