Enfim
concluo minhas críticas da Trilogia das Cores de Krzysztof Kielsowski,
escrevendo sobre “A Fraternidade é Vermelha”, coincidentemente também o último
filme do diretor antes de falecer em 1996, dois anos depois do lançamento deste
filme. Desculpem o pequeno atraso em escrever essa crítica, porém o motivo para
ele é bem simples: Minha burrice não me permitiu entender o filme na primeira
vez que o assisti.
Caso
você não tenha assistido o filme ainda, não se assustem com isso, o filme
continua sendo muito bom e continuo recomendando assisti-lo. Porém, aviso-os
que, assim como os outros filmes da trilogia, é preciso uma grande bagagem
cultural para se entender “Fraternidade” em sua totalidade. Uma bagagem que,
admito, não tenho. Então será essa possivelmente uma das minhas piores
críticas, apesar de ter re-assistido o filme, pausando em alguns momentos para tentar
entender detalhes que não havia entendido na primeira vez? Sim, possivelmente
será. Vai ter trechos bonitos demais que de jeito nehum (cof, cof) terei me inspirado em artigos que li sobre o filme? Com certeza! Mas, como já havia dito na minha crítica de “A Liberdade é Azul”, já
estou psicologicamente preparado para no futuro me arrepender dessas críticas, porque
é um fato que pura e simplesmente não
tenho como fazer uma boa crítica desses filmes. Mas as farei mesmo assim.
A
protagonista do filme dessa vez é Valentine Dussault, interpretada por Irène
Jacob. Valentine é uma estudante universitária (embora nunca a vemos estudar) e
modelo vivendo em Genebra, na Suíça. A rotina de Valentine consiste de atender
ligações de seu namorado, um cretino possessivo que mora na Inglaterra e já
assume que ela está sendo infiel se não atender o telefone quando ele liga; participar
de desfiles e ensaios fotográficos, como uma campanha publicitária para um
chiclete; ter aulas de balé, que o filme faz parecer a coisa mais dolorida do
mundo (quem já fez balé, confere?); e comprar jornal em uma vendinha, onde ela
aproveita o troco para apostar em um caça-níquel, parecendo estranhamente
contente quando perde (falaremos melhor sobre isso mais tarde). Ah, e ela tem
um irmão mais novo que é viciado em heroína. Aviso isso porque o vício dele
aparece apenas uma vez por alguns poucos segundos em uma foto de jornal, porém
mais tarde é referenciado várias vezes.
Paralelamente
à rotina de Valentine, acompanhamos também outro jovem, Auguste, (interpretado
por Jean-Pierre Lorit), que está estudando para se tornar juiz. Auguste é
vizinho de Valentine, porém ambos nunca chegaram a se encontrar. Ele mora
sozinho com seu cachorro de estimação; namora uma moça (interpretada por
Frederique Feder) que ganha a vida com um serviço de previsão do tempo por
telefonia (era comum isso nos anos 90?); e gosta de fumar Marlboros. Isso é
tudo o que sabemos sobre ele no começo, e demora um tanto para descobrirmos
afinal qual sua importância para o filme. Mas não se preocupe, ao final tudo é
respondido.
Mas
voltando a Valentine. Tudo anda relativamente normal em sua vida, até que uma
noite o rádio em seu carro não sintoniza direito. Enquanto tenta resolver isso,
Valentine se distrai e acaba atropelando uma cadela chamada Rita. Esta
sobrevive, mas acaba ficando bastante machucada. Valentine lê em sua coleira o
endereço de seu dono e vai atrás dele para avisa-lo.

Mas
eis que o dono (interpretado por Jean-Louis Trintignant) se revela um cara pra
lá de estranho: Deixa o portão de sua casa aberto para qualquer um entrar,
porém mostra um total desinteresse quando Valentine entra e lhe diz que
atropelou sua cadela. E quando a jovem fica chocada com seu desinteresse, ele
apenas a dispensa dizendo “Se quiser, Rita é tua”.
Valentine
resolve então levar Rita para o veterinário (onde descobre que ela está prenhe)
e mantê-la em seu apartamento. Mas não demora para a cadela fugir e voltar para
a casa de seu antigo dono, que se mostra tão desinteressado no mundo quanto no
outro dia (a ponto de Valentine lhe perguntar porque ele não para de respirar
de uma vez). Valentine resolve arriscar entrar em sua casa uma segunda vez... E
eis que ela descobre o grande segredo do homem, que, aliás, se chama Joseph Kern.
Acontece
que, apesar de estar cansado da vida e não amar nada nem ninguém, Joseph, que é
um juiz aposentado, possui um único hobby: Pegar as frequências telefônicas de
seus vizinhos em seu rádio e ouvir assim suas conversas. Por mais que esteja
ciente do quão asqueroso e ilegal é invadir a privacidade das pessoas dessa
forma, Joseph o faz mesmo assim, não apenas por achar divertido, mas por achar
que seu hobby não afeta a vida das pessoas: Ele apenas ouve suas conversas
telefônicas, sem fazer nada a respeito do que ouviu.
Valentine,
sendo uma moça certa de seus valores morais, até tenta avisar uma família de
vizinhos de Joseph de que eles estão sendo espionados; mas, ao perceber que sua
denúncia faria mais mal do que bem à família (Valetine, ao entrar na casa de
Joseph, ouviu uma conversa na qual o pai da família falava com seu amante),
desiste e vai embora, para até certo escárnio de Joseph (é também nessa cena
que se descobre que um dos vizinhos de Joseph é justamente a namorada de
Auguste, e que ele ouve as conversas entre os dois). Assim começa uma estranha
relação (fraterna, pode-se até dizer) entre Valentine e Joseph, que leva este
a, naquela mesma noite, enviar cartas a seus vizinhos denunciando-se, interferindo
pela primeira vez na vida deles, o que chama a atenção de Valentine e faz com
que ambos, ao longo dos dias seguintes, conheçam melhor um ao outro.

Se
“A Liberdade é Azul” era o mais intimista da trilogia e “A Igualdade é Branca”
o mais humorado, “A Fraternidade é Vermelha” é possivelmente o mais místico: O
tempo todo o filme traz elementos que Kieslowski apresenta como manifestações
de algo maior, algo que conecta e, aos poucos, aproxima as vidas de personagens
que parecem ter pouco em comum e que, em circunstâncias normais, jamais
falariam uns com os outros. Para os mais céticos, podem ser vistos como meras
coincidências: Um livro que Auguste derruba no chão e que cai na exata página que
contém a resposta para uma das perguntas de seu exame de juiz; pequenos
incidentes que evitam que os personagens atendam o telefone em momentos
importantes, afastando-os de certas pessoas e, por consequência, aproximando-os
de outras; um evento no final do filme que “coincidentemente” une os personagens
principais dos três filmes da trilogia; o filme todo parece ser feito de “coincidências”
assim. Até mesmo alguns objetos comuns parecem ter certo poder místico de
definir o destino e unir as pessoas, como o caça-níquel em que Valentine
aposta, no qual sempre que ela vence algo ruim acontece, ou a caneta tinteiro
que Auguste ganha de presente de sua namorada ao passar no exame para juiz, em
uma situação semelhante àquela na qual Joseph ganhou sua própria caneta
tinteiro.
Kieslowski
já havia explorado o misticismo e o que conecta as pessoas umas às outras em
filmes anteriores, como “A Dupla Vida de Véronique” (sobre uma cantora polonesa
e sua sósia francesa). Mas este lado místico não é o único ponto de reflexão de
“A Fraternidade é Vermelha”. Boa parte dos diálogos trocados entre Valentine e
Joseph, especialmente no começo, giram em torno do direito que uma pessoa tem
de decidir o futuro de outras e de interferir em suas vidas, como Joseph fazia
quando era juiz. Em um momento, Joseph diz que quando era juiz, nunca sabia se
havia tomado uma decisão certa ou errada, se havia condenado ou salvado uma
pessoa injustamente, e que ao espionar a vida de seus vizinhos sem interferir
nelas ele ao menos tem total noção das consequências de seus atos. Valentine
tem o mesmo questionamento quando se vê incapaz de fazer à família de vizinhos
de Joseph uma revelação que lhes traria uma situação desconfortável, mesmo
sabendo que isso a torna cúmplice de Joseph em sua invasão de privacidade.
Nisso,
surge outro grande questionamento do filme: Quanto, afinal, que nossas vidas são
de fato privadas? Quanto podemos afinal nos isolar em nosso próprios mundos, em
nossas próprias casas? Embora a Trilogia das Cores já houvesse abordado isso em
“A Liberdade é Azul” e na tentativa de isolamento da protagonista Julie, aqui a
questão é abordada de um ponto de vista contrário, do de Joseph, alguém
tentando invadir a privacidade de outras pessoas. Ao mesmo tempo, porém, Joseph
mantém-se ele próprio isolado do mundo, desligado de todas as conexões terrenas.
Mas esse desligamento, por maior que seja, não é total, como é representado
pelo fato de ele nunca trancar as portas de sua casa, permitindo que Valentine,
Rita e qualquer outra pessoa entram e saiam a qualquer momento.
Há
também aí o valor simbólico que Kieslowski dá ao telefone. A primeiríssima cena
mostra alguém (que mais tarde percebe-se ser o namorado de Valentine) discando em
um telefone. A câmera então acompanha a ligação ao longo do fio, para dentro da
terra, por redes e redes de fios telefônicos, atravessando o Canal da Mancha enquanto
conversas podem ser ouvidas, em uma montagem típica dos anos 90 (apenas tentem
não pensar nos créditos iniciais de “Clube da Luta” ao assistirem essa cena).
Mas o porquê disso, afinal? Kieslowski admitiu, em entrevistas, que acreditava
que diferentes pessoas em diferentes partes do mundo podem estar pensando as
mesmas coisas ao mesmo tempo, e que tentava fazer filmes que conectassem, dessa
forma, seus personagens. Acreditava também que as pessoas no mundo moderno
vivem vidas cada vez mais isoladas e privadas, mas mesmo que não estejamos
conectados materialmente, continuamos conectados uns aos outros
espiritualmente.
Eis
aí que entra o telefone. Embora não seja uma invenção tão moderna assim, ele
traz consigo a noção moderna de conectar o mundo inteiro, aproximar de forma
instantânea pessoas fisicamente separadas por mares inteiros (lembrando que
esse filme foi lançado em 1994, quando a internet não tinha todo o poder que
tem atualmente). Mas por mais que uma pessoa na Inglaterra possa falar
instantaneamente com alguém na Suíça, não quer dizer que essa aproximação é
material. As pessoas continuam isoladas cada uma em seu canto, vivendo suas
vidinhas particulares, sendo estranhas umas às outras. O telefone aparece então
como o meio que une esses estranhos, que embora não se vejam acabam socializando-se
entre si, formando uma verdadeira comunidade de elementos isolados.
Mas,
como Kieslowski tenta mostrar na maioria de seus filmes e especialmente em “A
Fraternidade é Vermelha”, essas vidinhas não são tão particulares assim. O
tempo todo pessoas diferentes, que nunca se viram ou falaram pessoalmente,
estão fazendo as mesmas coisas, pensando as mesmas coisas, mesmo que não seja
pelos mesmos motivos. Milhares de pessoas podem estar falando no telefone ao
mesmo tempo (como a cena inicial mostra), lendo os mesmos livros, fazendo
compras nos mesmos lugares... E mesmo que não façamos tudo ao mesmo tempo,
eventualmente nossas vidas coincidirão em um ponto ou outro, como se vê pelas
assombrosas coincidências nas vidas de Joseph e Auguste, que é quase um alter
ego mais jovem do juiz, ou então pelas rotinas de Auguste e Valentine, que são
vizinhos e constantemente aparecem indo aos mesmos lugares e tomando as mesmas
decisões, mas nunca chegam a notar a presença um do outro.

Kieslowski uma vez
disse em uma entrevista: “Eu gosto de encontros do acaso – a vida está cheia
deles. Todo dia, sem perceber, passo por pessoas que eu deveria conhecer. Neste
momento, neste café, estamos sentados perto de estranhos. Todos vão se
levantar, sair, e seguir seus próprios caminhos. E elas nunca mais vão se
encontrar. E se elas se encontrarem, elas não vão perceber que não é pela
primeira vez”. É essa a tese central de “A Fraternidade é Vermelha”: De que há
algo como um destino que intervém na vida das pessoas, fazendo com que, em meio
a seus dramas individuais, seus rumos cruzem com os de outras pessoas em
encontros que podem ou não ser vistos como coincidências.
Avaliação: Vale muito a
pena. E assistam também os outros dois filmes da trilogia.
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