Acho que até agora não me foquei em nenhum
filme de guerra neste blog, não? Por mais que tenha aqueles filmes de guerra
por aí que são realmente muito bons e que todo mundo deveria assistir pelo
menos uma vez na vida, sempre tive certa dificuldade em saber como reagir após
assistir um. Quero dizer, são filmes tão pesados e que lidam com temas tão
difíceis, que pra mim a melhor coisa a se fazer sempre foi deixar seus temas
serem digeridos em silêncio, sem tentar verbalizar suas descargas emocionais.
Mas, minha proposta aqui é justamente verbalizar
minhas impressões dos filmes que assisto, por mais que às vezes seja um tanto
difícil, o que vai tornar essa crítica consideravelmente mais curta (e
possivelmente medíocre) que o meu normal, já aviso. Sendo assim, falemos aqui
de “Katyn”, do diretor polonês falecido a pouco Andrzej Wajda.

“Katyn”
lida com o que é bem possivelmente um dos episódios mais controversos do front
do leste europeu na 2ª Guerra Mundial, no qual mais de 20 mil poloneses, em sua
maioria oficiais militares, foram executados e enterrados em uma vala comum na
floresta de Katyn, na atual Rússia. Controverso porque, durante décadas, a
União Soviética, com o apoio do governo comunista polonês, afirmou que o
massacre foi realizado pelos nazistas em 1941, época em que as tropas alemãs
controlavam a região. Foi apenas no final da década de 80, com o fim do governo
comunista, que os poloneses puderam dizer publicamente o que eles já vinham
suspeitando há muito tempo: Que o massacre havia sido na verdade realizado
pelos próprios soviéticos.
E
de fato, no ano seguinte, o então líder soviético Gorbachev foi obrigado a
admitir que o massacre foi realizado sob ordens de Stalin, e após o fim da
União Soviética o presidente russo Yeltsin tornou públicos os documentos que
autorizavam a execução de oficiais poloneses em 1940, quando os nazistas ainda
não haviam dominado a região de Katyn.
Dou
essa contextualização toda porque, mais uma vez, estou me metendo em um filme
que não foi feito pra mim: Wajda, enquanto vivo, afirmava que fazia filmes para
os poloneses, sem pensar no reconhecimento internacional. E “Katyn” mostra bem
isso, retratando diversas situações comuns no país durante a guerra e nos anos
seguintes com a “naturalidade” de quem viveu elas: De fato, Wajda não apenas permaneceu
na Polônia durante a 2ª Guerra, como também seu pai foi um dos oficiais
executados em Katyn, o que dá ao filme um tom extremamente pessoal.
Ainda
assim, não vamos esquecer que “Katyn” é uma obra de ficção. E seu enredo, menos
do que no massacre em si, foca-se nas famílias dos executados, principalmente
nas figuras femininas: As esposas, filhas, mães e irmãs que sobreviveram à
guerra e, pelos anos seguintes, foram atormentadas pela dúvida quanto ao que
realmente aconteceu com aqueles que perderam, proibidas de qualquer expressão
que se oponha à “verdade” divulgada de que o massacre foi realizado pelos
nazistas.

Entre elas,
encontram-se Anna (interpretada por Maja Ostaszewska), esposa de um capitão de
cavalaria, a poderosa figura materna capaz de ir de um lado ao outro da Polônia
por sua família, e que de certa forma serve como personagem principal do filme;
Róza (interpretada por Danuta Stenka), a orgulhosa esposa de um general que se
recusa a ceder a qualquer pressão em relação ao massacre; e as duas irmãs de um
tenente da aeronáutica, que embora ambas se rebelem contra o regime comunista
da Polônia pós-guerra, diferem mesmo assim na forma como acham correto se
rebelar.
Embora
o protagonismo seja definitivamente das mulheres, os homens também têm seus
papeis importantes, ligando todas essas vidas aparentemente paralelas. Ainda
assim, é uma ligação bastante mórbida, com quase todos os personagens
masculinos sofrendo algum tipo de destino horrível, mesmo que não tenham sido
executados em Katyn. Ao final, apenas elas é que sobram, tendo que, das mais
variadas formas, lidar com o novo regime por conta própria.

Como
os mais importantes filmes de guerra, “Katyn” foge tanto quanto possível do
cinema de entretenimento e se aproxima no lugar do cinema essencial: É um filme
que não queremos ver, mas que precisamos ver;
que não necessariamente alguém pediu para ser feito, mas que precisava ser feito. Através dos olhos
daqueles (e principalmente daquelas) que ficaram, não se preocupa em passar uma
“moral da história”, uma “lição de superação” ou qualquer resposta fácil para
as questões que aborda, tanto que, de forma quase irônica, ao final do filme,
quando se espera um letreiro que dê algum dado histórico para o público
refletir a respeito, o que se tem é apenas uma tela preta. Sem falar que, para
dar um ar ainda maior de documentário para essa obra de ficção, Wajda chegou a
inserir nele cenas de cinejornais nazistas (que, ao descobrirem as valas comuns
onde os executados foram enterrados, usaram o massacre como propaganda antissoviética)
e soviéticos (que, ao assumirem o controle sobre a Polônia, usaram o massacre
como propaganda anti-nazista) aos quais ele conseguiu acesso. “Katyn” não
pretende ensinar nada que não seja uma tragédia histórica; não pretende dizer
nada que não seja um grito de angústia preso por décadas na garganta.
Claro
que tal intensidade devastadora não vem sem seus custos, em especial nos
personagens, que em sua maioria possuem aparições, digamos, “rasas” demais, com
o filme pouco se aprofundando em seus dramas e sofrimentos íntimos, tornando-os
pouco memoráveis individualmente (é bem possível que você acabe por
confundi-los entre si em algum ponto da história), o que acaba também, como
consequência, fazendo algumas cenas parecerem melodramáticas demais,
especialmente aquelas que exigem que nos importemos com os personagens não como
representações simbólicas de um povo, mas sim como, bem, personagens; assim,
acabamos pouco nos importando quando, por exemplo, dois adolescentes
subitamente se apaixonam após três minutos juntos. No geral, os personagens
acabam não sendo muito interessantes, e você se importa com eles mais por causa
das situações horríveis que vivem.
Ainda assim, embora sua
experiência narrativa seja um tanto desequilibrada, isso não torna “Katyn” um
filme ruim. Da mesma forma como “1984” não deixa de ser um clássico da
literatura só porque os personagens são a parte na qual você menos se investe,
“Katyn” não é muito diferente, e o motivo é o mesmo: Em ambos, a narrativa não
é o ponto principal. O ponto principal (curiosamente bastante semelhante nos
dois casos) é fazer um ensaio sobre a opressão ideológica e a manipulação em
nome do poder, e o que torna ambos bons ensaios é a intensidade de suas narrativas mais do que as narrativas em si,
assombrando o público e causando uma impressão difícil de ser esquecida.
E de fato, intensidade é a palavra-chave aqui: Da
sequência inicial, mostrando um grupo de poloneses atravessando uma ponte para
fugir da invasão alemã, apenas para encontrar outro grupo de poloneses do outro
lado fugindo da invasão soviética, com a ponte retratando de forma alegórica a
sensação dos poloneses de estarem encurralados e sem terem para onde fugirem
(de onde você acha que veio a expressão “corredor polonês”?); até a sequência
final, em que Wajda, durante dez angustiantes minutos, retrata, na forma das páginas em branco de um diário, como o massacre
de Katyn deve ter ocorrido, não poupando nenhum personagem (e muito menos o
público); passando
pela pesarosa trilha sonora de Krzysztof Penderecki, que não raro mais lembra uma marcha fúnebre; “Katyn” é um filme dirigido de forma poderosa, cada pequena cena te
dando um aperto no peito.

Como se não bastasse, não deixa de ser um grande
épico, com centenas de figurantes, uma minuciosa reconstrução do período
retratado, e uma câmera que parece percorrer cada milímetro de seus enormes e
variados cenários, fazendo qualquer cinéfilo se impressionar com a energia que
Wajda, na época com mais de 80 anos, dispôs para realizar esta obra.
Avaliação: Vale a pena.
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